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Dia Nacional da Educação Infantil: os caminhos da aprendizagem na infância
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Publicado por Micaela Soares em 25/08/2026
Alunos da educação infantil
Alunos do EDI Chácara do Céu no Rio de Janeiro. Foto: Micaela Soares/MultiRio

Agosto reúne três datas que colocam a educação em evidência. No dia 7, é celebrado o Dia Internacional da Educação; no dia 11, o Dia do Estudante; e, encerrando o mês, em 25 de agosto, o Dia Nacional da Educação Infantil. A data chama atenção para uma etapa fundamental da educação básica e para o papel que este segmento desempenha no desenvolvimento das crianças.   

A escolha da data está relacionada à trajetória de Zilda Arns, médica pediatra e sanitarista que nasceu em 25 de agosto. Ao longo da vida, ela se dedicou à promoção da saúde e à defesa dos direitos das crianças e foi responsável pela criação da Pastoral da Criança, organização que atua na promoção do desenvolvimento infantil. 

Em reconhecimento à sua contribuição nessa área, o dia de seu nascimento foi instituído como o Dia Nacional da Educação Infantil pela Lei nº 12.602/2012. A mesma legislação também criou a Semana Nacional da Educação Infantil.  

Educação Infantil: por que os primeiros anos são tão importantes?   

A primeira infância é marcada por descobertas, interações e diferentes formas de aprender. Nesse contexto, a Educação Infantil oferece às crianças de 0 a 5 anos experiências que favorecem o desenvolvimento em aspectos como linguagem, movimento, autonomia, pensamento e relações sociais. Segundo a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), essa etapa deve contribuir para o desenvolvimento integral da criança, em parceria com a família e a comunidade. 

Angelina Moreira, diretora-presidente da MultiRio e profissional com mais de 15 anos de atuação nas áreas de educação e gestão pública, destaca a importância da Educação Infantil para o desenvolvimento na primeira infância: 

"A Educação Infantil é essencial porque a primeira infância é o período de maior intensidade no desenvolvimento cerebral, emocional, social, motor e da linguagem. Nessa fase, estímulos adequados, brincadeiras, vínculos afetivos, controle do uso de telas e um ambiente acolhedor, no qual a criança se sinta segura para explorar, conviver e expressar suas emoções, impactam diretamente sua formação integral. A Educação Infantil garante experiências que respeitam o tempo e as singularidades de cada criança, fortalecendo sua autonomia, criatividade, comunicação e capacidade de se relacionar." 

Marcelo Fernandes, coordenador da Coordenadoria de Educação Infantil e Primeira Infância (CEIPI), da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, contribui para essa discussão e explica aspectos importantes relacionados à Educação Infantil. Confira a entrevista: 

Por que a Educação Infantil é uma etapa tão importante para o desenvolvimento das crianças? 

Precisamos, inicialmente, compreender a Primeira Infância, período que abrange os primeiros seis anos de vida, como uma etapa crucial para a formação dos sujeitos.  

Gosto sempre de mencionar Lya Luft quando ela afirma que “a infância é o chão que a gente pisa a vida inteira”. Essa frase nos ajuda a compreender a profundidade e a importância das experiências vividas na primeira infância: elas deixam marcas, constroem referências e participam da maneira como cada sujeito se relacionará consigo mesmo, com o outro e com o mundo.  

Neste contexto, a Educação Infantil, primeira etapa da Educação Básica, é um espaço-tempo no qual as primeiras experiências e referências são construídas. Costumo dizer que isso significa que aquilo que oferecemos às crianças todos os dias importa. O colo que acolhe. O adulto que escuta. A conversa durante o banho. A história contada antes de dormir. A brincadeira compartilhada. O limite colocado com respeito. A oportunidade de tentar novamente. O olhar com que reconhece uma conquista. A presença que diz, mesmo sem palavras: “Você é importante para mim. Eu estou aqui.” 

Por isso, não se trata de uma preparação para o Ensino Fundamental: a Educação Infantil tem valor em si mesma. É um tempo de infâncias, de relações, de brincadeiras, de descobertas, de investigação e de construção de sentidos. As experiências vividas nessa etapa contribuem para o desenvolvimento das diferentes dimensões da criança: física, emocional, social, cognitiva e/ou cultural.

O que acontece nos primeiros anos de vida que torna esse período tão significativo para o desenvolvimento?

Na primeira infância, nos deparamos com a constituição do nosso próprio eu. Neurocientificamente falando, o cérebro da criança passa por um período de intenso desenvolvimento. 

Desde o nascimento, o cérebro está formando e fortalecendo conexões entre os neurônios a partir das experiências que a criança vive. Por isso, as relações, as interações, as brincadeiras, a linguagem, o movimento e o ambiente em que ela cresce têm grande importância.  

Nos primeiros anos, o cérebro apresenta uma grande plasticidade, ou seja, uma capacidade especialmente significativa de se modificar e aprender a partir das experiências. Isso não significa que tudo esteja determinado nessa fase, mas que as experiências vividas nesse período podem favorecer a construção de importantes bases para o desenvolvimento da linguagem, da memória, da atenção, da aprendizagem, das emoções e das relações sociais.  

É importante lembrar que o cérebro não se desenvolve sozinho. Ele se desenvolve em relação com o corpo, com as pessoas e com o ambiente. Quando um bebê é acolhido, quando um adulto conversa com ele, responde aos seus gestos e expressões, brinca, canta, conta histórias ou simplesmente está disponível, essas interações oferecem experiências importantes para o desenvolvimento.

Quais aspectos do desenvolvimento são trabalhados na Educação Infantil?  

Precisamos superar a ideia de que a criança se desenvolve por partes, como se fosse possível separar linguagem, corpo, emoções, pensamento, movimento e relações. A criança não é um conjunto de áreas a serem trabalhadas. A criança é um sujeito integral. Por isso, pensar na linguagem, cognição ou em aspectos emocionais implica reconhecermos que eles não acontecem de forma isolada. Eles se atravessam o tempo inteiro. 

Outro ponto que destaco é que o desenvolvimento das crianças não acontece de forma linear, com padrões meramente estipulados pela faixa etária. Ele acontece de maneira articulada, nas experiências que vivenciam, nas relações que estabelecem e nas oportunidades que encontram para brincar, explorar, investigar, comunicar-se, movimentar-se, participar e construir sentidos sobre o mundo. 

Qual é o papel do professor na Educação Infantil? 

O papel do professor na Educação Infantil é muito mais amplo do que organizar atividades. O professor das infâncias é um curador de ambientes, de tempos, de materiais e de experiências. É aquele que observa atentamente as crianças, escuta suas perguntas, reconhece seus interesses e, a partir dessas observações, organiza contextos que ampliem suas possibilidades de exploração, descoberta e aprendizagem.  

Na perspectiva de Vygotsky, uma das grandes referências na minha formação, o professor ocupa um lugar fundamental como par mais experiente, aquele que, por meio da interação e da mediação, estabelece vínculos. É também um adulto de referência, uma presença que oferece segurança, acolhimento, limites e confiança.  

Na Educação Infantil, a criança aprende não apenas pelo que o professor propõe intencionalmente, mas também pelo modo como ele se relaciona, fala, escuta, acolhe, organiza o espaço, resolve conflitos e olha para cada criança.  

Por isso, ser professor de crianças pequenas exige compreender que cada gesto é educativo, cada escolha comunica e cada experiência pode produzir aprendizagem. O professor, dessa maneira, ocupa o lugar de quem cria condições para que a criança pergunte, investigue, experimente, pense e construa seus próprios sentidos. É aquele que prepara o ambiente, mas também se deixa surpreender pelo que as crianças fazem dele. 

Quando falamos em Educação Infantil, o que significa dizer que a criança está aprendendo? 

Quando falamos em Educação Infantil, precisamos ampliar nossa compreensão sobre o que significa aprender. Aprender não é apenas memorizar informações, responder corretamente a uma pergunta ou realizar uma atividade conforme o modelo apresentado pelo adulto.  

Na Educação Infantil, aprendizagem e desenvolvimento caminham juntos, mas não são a mesma coisa. A criança está permanentemente construindo conhecimentos a partir das experiências que vivencia e das interações que estabelece com outras crianças, com os adultos, com os objetos, com os espaços e com as culturas. Ao brincar, ela experimenta papéis sociais, utiliza a linguagem, negocia com os colegas, organiza ideias, cria narrativas, resolve conflitos e mobiliza sua imaginação. 

Uma criança que observa uma formiga no jardim está aprendendo. Ela pode levantar hipóteses, fazer perguntas, comparar tamanhos, acompanhar movimentos, perceber características da natureza e buscar explicações. 

O professor precisa, portanto, observar os processos, e não apenas os resultados. Precisa estar atento às pequenas conquistas, às perguntas, às estratégias, às interações e às transformações que acontecem ao longo do tempo. E é por isso que a documentação pedagógica tem tanta importância na Educação Infantil: ela nos ajuda a tornar visíveis aprendizagens que muitas vezes não aparecem em uma atividade pronta, mas que estão presentes nos gestos, nas falas, nas brincadeiras, nas escolhas e nas investigações das crianças.

Como as experiências vivenciadas na Educação Infantil contribuem para aprendizagens futuras? 

Quando pensamos nas aprendizagens futuras, precisamos ter cuidado para não transformar a Educação Infantil em uma espécie de “prévia” do Ensino Fundamental. A Educação Infantil não existe para antecipar conteúdos, mas as experiências vividas nessa etapa certamente constroem bases importantes para aquilo que a criança aprenderá ao longo de sua trajetória escolar e de sua vida.  

Dessa forma, por exemplo, uma criança que aprendeu que pode errar e tentar novamente está construindo uma relação importante com a aprendizagem. Aprender também é lidar com o não saber. É experimentar, frustrar-se, perguntar, buscar outros caminhos e descobrir que nem sempre conseguimos de primeira. São experiências que vão constituindo uma criança mais participativa, curiosa, comunicativa, autônoma e capaz de aprender. 

E, nesse contexto, há algo que considero fundamental: as aprendizagens futuras não começam no Ensino Fundamental. Elas começam muito antes, nas experiências que a criança vive desde os primeiros anos de vida. Mas isso não significa alfabetizar precocemente, antecipar conteúdos ou transformar a Educação Infantil em uma preparação para a etapa seguinte. Significa compreender que toda experiência deixa marcas e produz aprendizagens. Então, quando oferecemos uma infância rica em brincadeiras, interações, literatura, movimento, música, arte, natureza, investigação, diálogo e relações afetivas seguras, estamos ampliando as possibilidades de a criança construir conhecimentos ao longo de toda a vida. 

Por isso, talvez a melhor pergunta não seja: “O que a Educação Infantil precisa ensinar para preparar a criança para o futuro?” Talvez seja: “Que criança queremos ajudar a formar e que experiências precisamos oferecer hoje para que ela possa continuar aprendendo amanhã?” 

Como família e escola podem atuar juntas no desenvolvimento das crianças? 

Precisamos, inicialmente, compreender que as instituições que atendem à Educação Infantil precisam assumir também um compromisso formativo com as famílias. Não podemos esperar que a parceria aconteça espontaneamente ou apenas quando surge algum problema. Ela precisa ser construída, cultivada e fortalecida cotidianamente. A família e a escola ocupam lugares diferentes, têm responsabilidades próprias e conhecimentos distintos sobre a criança. Não se trata de uma substituir a outra, nem de uma dizer à outra como deve educar. Trata-se de estabelecer uma relação de corresponsabilidade, na qual ambas possam compartilhar olhares, informações, experiências e preocupações em favor do desenvolvimento da criança. 

Quando falamos em trabalho formativo com as famílias, não estamos falando em ensinar aos pais e responsáveis como devem criar seus filhos. Estamos falando em criar espaços de escuta, diálogo, reflexão e construção conjunta de conhecimentos sobre a infância. É papel da instituição apresentar às famílias sua concepção de criança, de infância, de aprendizagem e de Educação Infantil, explicando por que determinadas escolhas pedagógicas são feitas e qual é o sentido das experiências oferecidas às crianças. 

Precisamos conversar com as famílias sobre o brincar, sobre a importância das interações, sobre autonomia, limites, alimentação, sono, desenvolvimento, literatura, linguagem, uso de telas, relações, emoções e tantos outros aspectos que atravessam a vida das crianças. Uma família que compreende o que a escola faz consegue participar de maneira mais significativa da vida escolar da criança. 

Mas existe algo que considero fundamental: a escola também precisa aprender com as famílias. A relação não pode ser uma via de mão única. A família conhece aspectos da criança que a escola muitas vezes não conhece: seus hábitos, suas histórias, seus medos, suas preferências, suas formas de comunicação, suas experiências fora da instituição. Escutar essas informações é essencial para que o professor possa compreender melhor aquela criança. 

O que uma boa experiência na Educação Infantil pode deixar como contribuição para a trajetória da criança? 

Uma boa experiência na Educação Infantil pode deixar marcas profundas nos sujeitos que compõem a nossa sociedade, porque aquilo que uma criança vive, sente e experimenta nessa etapa participa da construção de sua maneira de estar no mundo.  

Uma experiência pautada no acolhimento, na escuta, na brincadeira, na curiosidade, na participação e no respeito pode contribuir para que a criança se reconheça como alguém importante, capaz de aprender, de criar, de perguntar, de conviver e de transformar.  

Não estamos falando apenas das aprendizagens que poderão ser percebidas mais adiante na trajetória escolar, mas das marcas afetivas, sociais, culturais e humanas que permanecem.  

Por isso, educar na Educação Infantil é também assumir uma responsabilidade social: cada experiência que oferecemos hoje ajuda a constituir os sujeitos que amanhã participarão da sociedade, das relações, da cultura e do mundo que compartilhamos. 

FONTES: 

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