Com seu casario ao estilo do Rio Antigo e ladeiras sinuosas por onde passa o bonde, Santa Teresa é um dos mais pitorescos e bucólicos bairros do Rio. Localizado no coração da cidade, seus atrativos naturais e arquitetônicos, seus mirantes, centros culturais, ateliês, restaurantes, bares, hostels e hotéis – e até mesmo blocos de carnaval – levam cada vez mais visitantes e turistas ao bairro, especialmente aqueles que procuram uma alternativa de lazer diferente, com um toque daquela tranquilidade de antigamente, em plena região central da metrópole.
Santa Teresa se desenvolveu ao longo do caminho das tubulações do antigo Aqueduto da Carioca (Arcos da Lapa) e, reza a lenda, guarda uma história em cada esquina. Realmente, o bairro faz jus a essa fama. Tem sido reduto de intelectuais, escritores, músicos e artistas desde meados do século XIX, sem falar que, por lá, já moraram negros quilombolas, beatos e beatas, importantes personagens da história e vários membros da elite, que agitaram a vida social do Rio, com seus saraus que reuniam grandes nomes da literatura, da música e das artes do país.
O bairro não conta apenas os fatos narrados pela história documental. Nas obras de Machado de Assis, José de Alencar, Aluísio Azevedo e muitos outros escritores, são inúmeros os personagens de ficção que moram em Santa Teresa. É o caso de Iaiá Garcia, do romance homônimo; de Sofia, de Quincas Borba; de Aurélia, de Senhora; de Amâncio, de Casa de Pensão... Mais recentemente, o bairro também foi um dos principais cenários de um dos maiores sucessos da Walt Disney Studios, o filme Rio.
Beatos e quilombolas
As histórias de Santa Teresa começam poucos anos após a fundação da cidade, em 1565. No início do século XVII, já era lugar da manifestação da religiosidade e das festividades populares que ocorriam no entorno da Capela de Nossa Senhora do Desterro, cuja imagem, tida como milagrosa e responsável por muitas curas, atraía devotos, romeiros e peregrinos.
A ermida se localizava onde fica, hoje, a Ladeira de Santa Teresa, e foi fundada nos anos 1620 pelo português Antônio Gomes do Desterro, que mantinha uma quinta na colina batizada de Morro do Desterro, por causa do nome dele e da capela. Já nessa época, há registros de escravos negros fugidos que se escondiam nas matas do Desterro. A presença de quilombolas ali se estendeu por mais de dois séculos, e conferiu ao morro, durante esse tempo, uma certa fama de lugar de perigo.
Do Desterro à Santa Teresa
Em 1710, o caminho, que começava em Mata-Cavalos (atual Rua do Riachuelo) até a ermida, foi um dos mais importantes palcos da resistência dos portugueses durante a segunda invasão francesa à cidade. Era também em Mata-Cavalos que morava a família de Jacinta Pereira Alves, nascida em 1715, no dia do bicentenário da santa espanhola Teresa d’Ávila, fundadora da Ordem das Carmelitas Descalças. Querendo, tal como a santa, uma vida de orações, martírios e retiro, ela se encerrou, junto com a irmã, numa chácara abandonada no Morro do Desterro, a Chácara da Bica, cujo ponto mais alto ela batizou de Chácara do Céu.
As virtudes religiosas das irmãs se espalharam pela cidade. Quando, em 1742, elas ergueram uma modesta capela consagrada ao Menino Jesus, a Chácara da Bica praticamente virou um convento informal que atraía outras jovens religiosas, já que, na cidade, não havia nenhum convento oficial da Igreja para mulheres. Lá, na Chácara da Bica, elas viviam sob as rígidas regras monásticas das carmelitas, mesmo sem se professarem canonicamente.
O fato atraiu a atenção do capitão-general da cidade do Rio de Janeiro e das Minas Gerais, o conde de Bobadela e vice-rei do Brasil, Gomes Freire de Andrade, que, na época, fazia a construção do Aqueduto da Carioca. Incentivado pelo então bispo da cidade, dom frei João da Cruz, da ordem dos Carmelitas Descalços, ele mandou construir para elas um convento, na altura de onde ficava a ermida dedicada à Nossa Senhora do Desterro, que, naquele mesmo ano, ganhou uma igreja na Lapa. Com a construção, a irmandade, que já tinha a posse das terras da Chácara da Bica, recebeu também as terras da antiga Chácara do Desterro e da Chácara das Mangueiras.
Quando a obra ficou pronta, em 1751, o bispo já era outro: dom frei Antônio do Desterro, da Ordem dos Franciscanos, que não permitiu que o convento fosse dedicado à Santa Teresa, mas, sim, à Santa Clara. Iniciou-se um imbróglio entre o bispo e Jacinta Pereira Alves, que se recusou a ser irmã clarissa. Ela morreu em 1768 sem se professar, pois nem ela nem o bispo voltaram atrás em suas decisões. A questão do convento só seria resolvida em 1781, oito anos após a morte de frei Antônio, quando, enfim, o convento foi canonicamente professado às carmelitas. E, assim, o Morro do Desterro virou, finalmente, o Morro de Santa Teresa.