Boas PráticasVANESSA DA MOTTA MUNIZ PINHO
Vanessa Muniz é professora de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, onde atua há mais de 10 anos, dedicando-se ao desenvolvimento integral das crianças e à construção de práticas pedagógicas acolhedoras e significativas. É graduada em Pedagogia pela Universidade Estácio de Sá e possui formação de professores pelo Colégio Estadual Júlia Kubitschek. Atualmente, é Pós-graduada em Neuropsicopedagogia e Psicopedagogia pela Faculdade Facuminas, áreas que ampliam seu olhar sobre os processos de aprendizagem, inclusão e desenvolvimento cognitivo. Aos 47 anos, continua atualizando seus conhecimentos e fortalecendo sua trajetória profissional com compromisso, sensibilidade e paixão pela educação.
CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:Professor de Educação Infantil
O Eu, o Outro e o Nós
Reconhecimento de identidades, respeito à diversidade e às distintas culturas familiares.
Traços, Sons, Cores e Formas
Produções artísticas (brincos, cordões), apreciação estética e expressão de identidade.
Corpo, Gestos e Movimentos
Vivência corporal nas rodas de capoeira e brincadeiras na quitanda.
Oralidade e Escrita
Dicionário coletivo, rodas de conversa, registros das experiências e ampliação lexical.
Espaços, Tempos, Quantidades, Relações e Transformações
Observação do território e brincadeiras com valores, quantidades e organização dos produtos da quitanda.
RELATO DE PRÁTICA – Turma Pré-Escola II
O trabalho teve como objetivo a valorização da ancestralidade étnico-cultural das crianças da Pré-Escola II, fortalecendo práticas antirracistas e reconhecendo que cada família traz histórias, saberes e memórias que contribuem para a construção das identidades.
A prática teve início com a leitura do livro “O Baú de Monifa”, que apresenta a personagem em contato com a carta e os legados deixados por seus ancestrais. A partir dessa experiência, foi proposto um diálogo com as crianças sobre o que é ancestralidade: quem são nossos avós, bisavós e tataravós, o que herdamos deles e como essas memórias permanecem conosco. As falas espontâneas dos estudantes revelaram diversos atravessamentos afetivos e curiosidades.
Durante a exploração do livro, surgiram palavras de origem africana presentes no vocabulário cotidiano das crianças. Esse interesse impulsionou a criação de um Dicionário Coletivo Cultural, com registros escritos e fotográficos dessas palavras, pesquisando suas histórias e significados.
Na sequência, realizamos a leitura do livro “Felipa”, que motivou vivências corporais inspiradas na capoeira. As crianças experimentaram a ginga e movimentos ao som do berimbau, enquanto conversamos sobre a história dessa prática, suas lutas e formas de resistência. Surgiram reflexões sobre os navios negreiros, a separação de famílias e os sofrimentos vividos pelos povos africanos durante a escravização.
Também conhecemos a história de Nelson Mandela, destacando sua luta contra o apartheid, os símbolos de resistência e a defesa da igualdade de direitos. As crianças foram instigadas a falar sobre justiça, liberdade e respeito, conectando a narrativa às suas percepções do cotidiano. O trabalho também dialogou com o livro “Da Minha Janela”, estimulando que cada criança observasse o que vê de sua casa, refletindo sobre o que gosta, o que não gosta e situações reais do entorno, como violência.
O projeto avançou para a exploração do território, incentivando que observassem a comunidade onde a escola está localizada. Conversamos sobre os comércios do entorno e pesquisamos a origem da palavra quitanda, valorizando esse espaço popular de trocas e convivência. A turma, coletivamente, escolheu o nome de sua própria quitanda na sala de aula, e colaborou com a coleta e organização de embalagens reutilizáveis, que foram preenchidas e caracterizadas para as brincadeiras de faz-de-conta.
A partir de imagens que valorizavam a estética e a beleza negra – turbantes, bijuterias, miçangas, pinturas faciais –, foram realizadas oficinas de confecção de cordões e brincos. As crianças criaram e usaram suas produções, tirando fotos e celebrando suas identidades, reforçando autoestima, representatividade e expressões estéticas como práticas antirracistas.
Nas brincadeiras na quitanda, surgiram aprendizagens espontâneas relacionadas ao sistema monetário: valores dos produtos, trocas, noções de preço e discussões sobre alimentos saudáveis.
A prática possibilitou observar a forte participação das crianças, que se mostraram curiosas, envolvidas e orgulhosas em compartilhar informações sobre suas famílias, seus costumes e vivências no território. A cada nova etapa, ampliaram suas percepções sobre identidade, respeito e diversidade étnico-racial, construindo vínculos afetivos com suas origens.
Foi possível reconhecer como as experiências artísticas, literárias e corporais contribuíram para o fortalecimento da autoestima, da expressão criativa e da valorização da beleza negra como identidade e pertencimento. As conversas sobre injustiças, igualdade e liberdade revelaram a capacidade das crianças de relacionar os conteúdos trabalhados com suas realidades e com a construção de um mundo mais justo.
A quitanda e a exploração do bairro possibilitaram aprendizagens significativas no campo das relações sociais, do faz-de-conta, da oralidade e da noção de quantidades, organizando brincadeiras simbólicas cheias de sentido.
A Educação para as Relações Étnico-Raciais, prevista na Lei nº 10.639/2003, tem como objetivo promover o reconhecimento da história, da cultura e das contribuições dos povos africanos e afro-brasileiros para a formação da sociedade brasileira. Na Educação Infantil, esse trabalho deve acontecer por meio de experiências significativas que valorizem a diversidade, fortaleçam a construção de identidades positivas e contribuam para o enfrentamento do racismo desde a primeira infância.
A proposta desenvolvida com a turma de Pré-Escola II buscou aproximar as crianças da riqueza da cultura africana e afro-brasileira por meio de diferentes vivências. Uma delas foi a construção de um Dicionário Ilustrado de Palavras de Origem Africana, composto por palavras presentes no cotidiano das crianças e acompanhadas de imagens. Essa atividade permitiu que elas reconhecessem a influência das línguas africanas na formação da língua portuguesa, compreendendo que muitos termos utilizados diariamente fazem parte do legado cultural africano, valorizando essa herança e ampliando seu repertório linguístico e cultural.
Outra experiência significativa foi a confecção de brincos inspirados na estética africana, proporcionando às crianças o contato com elementos visuais que representam a beleza, a criatividade e a diversidade dos povos africanos. A atividade favoreceu o reconhecimento da estética negra como expressão de identidade, cultura e pertencimento, contribuindo para desconstruir estereótipos e fortalecer o respeito às diferentes formas de beleza. Ao produzir e apreciar esses adornos, as crianças tiveram a oportunidade de compreender que a estética africana constitui um importante patrimônio cultural, merecedor de valorização e reconhecimento.
Essas práticas dialogam com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), especialmente com os campos de experiências "O eu, o outro e o nós", "Traços, sons, cores e formas" e "Escuta, fala, pensamento e imaginação", ao promoverem experiências de convivência, expressão artística, linguagem, construção da identidade e valorização da diversidade cultural.
Da mesma forma, as ações estão em consonância com o Currículo Carioca da Educação Infantil e com as orientações da Gerência de Relações Étnico-Raciais (GERER), que defendem a inserção intencional e permanente da história e da cultura africana e afro-brasileira no cotidiano escolar. Ao proporcionar experiências que valorizam a linguagem, a estética, a cultura e as contribuições dos povos africanos, a prática contribuiu para a formação de crianças mais conscientes, respeitosas e comprometidas com a equidade e com o reconhecimento da diversidade étnico-racial.
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