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Boas Práticas
Educação das Relações Étnico-Raciais
Recriando a "Redenção de Can"
Informações
Relato
Resultados Observados
UNIDADE DE ENSINO
EM Silvio Romero - 5ª CRE
Rua Porto Feliz 65 - Honório Gurgel

Anos Finais

AUTOR

THAYARA CRISTINE SILVA DE LIMA

Sou graduada em História e tenho mestrado e doutorado em Educação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde desenvolvi minha pesquisa doutoral com período sanduíche na New York University (NYU) por meio do CAPES/PRINT. Atuei como professora substituta de Didática e Prática de Ensino de História na Faculdade de Educação da UFRJ e, atualmente, sou professora de História na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro, desde 2023. Na Associação Nacional de História (Anpuh), integrei a coordenação nacional do GT Emancipações e Pós-Abolição (GTEP). Também faço parte do GEPEAR — Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação Antirracista da UFRJ. Sou autora do livro A cultura de luta antirracista e o movimento negro do século 21, lançado no ano de 2024, que integrou a lista de recomendações da GERER para a BIENAL de 2025. Atuo também em cursos de formação continuada de professores, especialmente na área da educação antirracista.

CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:Professora de História

ANOS/GRUPAMENTOS ENVOLVIDOS
6º ano
7º ano
OBJETIVOS
A prática buscou explicar o imaginário social da virada do século XX, momento em que pessoas negras eram vistas como “atrasadas” e o projeto de um Brasil moderno se vinculava a políticas de embranquecimento, expressas em obras como "A Redenção de Can". Partindo disso, propus um debate comparando o quadro de Modesto Brocos à obra "A Benção", do artista Skelltons. Em seguida, os estudantes recriaram "A Redenção de Can" usando as composições reais de suas famílias, percebendo a diversidade racial que as constitui e refutando a previsão de João Batista de Lacerda de que, cem anos após 1912, não haveria mais negros no Brasil. Por fim, escreveram cartas direcionadas a Lacerda, articulando os tempos de 2025 e 1912 como tempos que dialogam. A proposta se fundamentou em perspectivas afrofuturistas, no exercício de reconstrução de fontes e no desafio ao tempo linear, inspirada em autoras e autores como Denise Ferreira, Saidiya Hartman, Kodwo Eshun, Simas e Rufino.
HABILIDADES
6º ano - História - Identificar os componentes marcantes da memória coletiva e social do estado do Rio de Janeiro.?
7º ano - História - Identificar vestígios deixados pelas sociedades do passado que permitem uma interpretação possível dos fatos históricos.
PERÍODO DE REALIZAÇÃO
Maio/4/20 até atualmente

Minha intenção era problematizar o imaginário social da virada do século 20 (que persiste até hoje) que pensava pessoas negras enquanto atrasadas. Utilizei na construção desse conjunto de atividades uma perspectiva afrofuturista de pensar a História . Para tanto, iniciamos a primeira atividade com um debate em torno da imagem do quadro "A redenção de can", do artista Modesto Brocos, em comparação com a obra "A Benção" do artista Skelltons.

A partir das duas imagens, propus um jogo dos erros, onde os alunos iam criando teorias para justificar a diferença entre os dois quadros. A intenção desse momento era apresentar duas formas possíveis de imaginar pessoas negras no futuro e sondar que tipo de debate povoava o imaginário das turmas, sobre questão racial no Brasil.

A partir daí, a segunda atividade foi a recriação da obra " A redenção de Can" a partir da composição das famílias dos estudantes em comparação com a família apresentada na obra de referência. No data show deixei fixa a projeção da obra de Brocos e distribuí para a turma cardas da obra de Skelltons, dessa forma os alunos tinham artes de referência como orientação para a atividade. Em seguida distribuí a plataforma onde os desenhos seriam produzidos, uma folha que imitava a moldura de um quadro. A ideia era fazer uma referência ao fato de que nossas recriações também podem ser fontes históricas de uma tempo. Por fim, solicitei que, seguindo as cores de pele de cada pessoa de sua própria família, os alunos recriassem a obra previamente apresentada. A intenção era que eles observassem a diversidade racial de si mesmos e que compõe suas famílias e para além disso, que estruturassem a ideia de que João Batista de Lacerda estava equivocado. Nessa atividade promovemos a descolonização de fontes históricas a partir do exercício de sutura temporal, que pode ser visto no trabalho das releituras do quadro de Modesto Brocos. Como referência utilizei os trabalhos de Denise Ferreira e Saidiya Hartman.

A terceira atividade foi a produção de uma carta para João Batista de Lacerda, que os alunos deveriam escrever, contando para ele se sua projeção de não haver mais negros depois de 100 anos, estava correta. O comando da questão era de que eles produzissem uma carta em primeira pessoa se apresentando, apresentando o seu contexto e indicando ao destinatário suas próprias opiniões acerca da projeção sobre embranquecimento. Nessa atividade promovemos o desafio ao tempo linear, que pode ser visto na conexão temporal entre o tempo da escrita da carta (2025) e o tempo da imaginada recepção dessa carta (1912). Utilizei como referência para esse momento os trabalhos de Kodwo Eshum e Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino.

As atividades geraram surpresa e indignação, levando os alunos a questionarem ideias naturalizadas sobre raça e a refletirem sobre a cor de si mesmos e de suas famílias. Houve inclusive um forte movimento de diálogo e interlocução com a experiência religiosa da turma, mostrando abertura ao debate crítico. O objetivo de provocar estranhamento diante do imaginário racial do início do século XX foi plenamente alcançado, assim como a observação da diversidade racial nas famílias. O tema saiu do silêncio e passou a circular pela escola, ainda que com tensões. A noção de afrofuturismo, embora praticada, ainda precisa de aprofundamento conceitual. A metodologia funcionou bem para a turma: o jogo dos erros ativou a curiosidade histórica e a recriação das obras valorizou repertórios artísticos, sobretudo de alunos negros. A principal contribuição foi romper o silenciamento sobre raça e estimular a busca por compreensão racial, incluindo desdobramentos como o interesse pelo estudo da branquitude
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ESHUN, Kodwo. Mais considerações sobre o afrofuturismo in FREITAS, Kênia (Org) AFROFUTURISMO. Cinema e música em uma diáspora intergalática. Tradução de André Duchiade. São Paulo: Caixa Cultural. 2015, p.97.

SIMAS, Luiz Antônio & RUFINO, Luiz. Flecha no tempo. Rio de Janeiro: Mórula, 2019.

HARTMAN, Saidiya. Vênus em dois atos. Revista Eco-Pós, v.23, n.3, p.12-33, 2020.

FERREIRA, Denise. A dívida impagável

Registros
IMAGENS
Referência e Releitura da Aluno Ana Luiza Santana 1702
Obra da Aluna Ana Luiza Santana, em foco.
João Batista de Lacerda estava certo?
Cartas para JB Lacerda
Produção 1
Produção 2
Material de suporte para as obras artisticas.
Artistas trabalhando
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