Boas PráticasMARCUS VINICIUS DA ROCHA RIBEIRO
Marcus Vinicius da Rocha Ribeiro é licenciado e bacharel em História pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com especialização em Literatura Brasileira e mestrado pelo programa PROFHISTÓRIA/UERJ, onde desenvolveu como dissertação o trabalho intitulado “Machado de Assis como possibilidade pedagógica para uma educação antirracista no ensino de história” (2022). Nesse estudo, propõe usar a literatura de Machado de Assis como recurso didático para abordar o fim da escravidão e suas persistências no Brasil, com o objetivo de fomentar uma educação histórica. Desde 2007, atua como professor de História na rede pública estadual e municipal do Rio de Janeiro, lecionando para alunos do Ensino Fundamental (anos finais) e Ensino Médio. Sempre com um forte compromisso com a integração entre história, literatura e práticas pedagógicas críticas — buscando promover no ensino de História reflexões sobre memória, racismo estrutural e os impactos da escravizacão na sociedade contemporânea.
CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:professor docente I
A prática teve início com a proposta de aproximar os alunos das narrativas indígenas, reconhecendo a riqueza cultural dos povos originários do Brasil e rompendo com visões estereotipadas ainda presentes no imaginário escolar. As aulas começaram com rodas de leitura nas quais contos tradicionais foram apresentados oralmente e em versão escrita, permitindo que os estudantes percebessem a força da palavra como instrumento de memória, ensinamento e resistência. A cada encontro, discutíamos elementos recorrentes dessas narrativas — a relação com a natureza, a presença do sagrado, o respeito aos espíritos ancestrais, a sabedoria dos mais velhos e o equilíbrio entre homem, território e vida.
Após leituras compartilhadas, realizamos debates e registros em diário reflexivo, incentivando a comparação entre diferentes histórias, personagens, valores e moralidades. Esse processo estimulou escuta, interpretação e sensibilidade cultural. Em seguida, os alunos foram convidados a criar suas próprias narrativas, inspiradas nos contos estudados, mas partindo de suas realidades, identidades e percepções de mundo. Surgiram heróis e heroínas indígenas com diferentes poderes e trajetórias — alguns protetores das águas, outros defensores das florestas ou guardiões de memórias apagadas pelo tempo. O exercício valorizou a autoria, a imaginação e a capacidade de construção simbólica.
A etapa seguinte envolveu produção visual dos personagens. Os estudantes desenvolveram ilustrações detalhadas, respeitando elementos culturais indígenas, pesquisando roupas, grafismos, pinturas corporais e ornamentos tradicionais. A arte tornou-se extensão narrativa, traduzindo valores, força, ancestralidade e territorialidade. Cada herói criado carregava uma história, um propósito e uma mensagem — muitos ligados à preservação ambiental, à resistência contra o preconceito ou à defesa de suas aldeias.
Para culminância, organizamos uma roda de leitura com os contos autorais. Os alunos apresentaram suas narrativas, compartilhando com a turma suas inspirações, processos de criação e reflexões. O momento foi marcado por troca, encantamento e reconhecimento mútuo, reforçando o protagonismo estudantil e o respeito à cultura indígena como parte essencial da identidade brasileira. A prática consolidou-se como experiência completa de leitura, escrita, arte e pertencimento, fortalecendo vínculos com o conhecimento ancestral e transformando a sala em espaço vivo de memória, criação e celebração das vozes originárias.
Contos utilizados :
Mito Guarani – O Roubo do Fogo por Nhanderequeí (ou Ñanderýkeý / Nanderykey)
Povo: Guarani (especialmente Apapokuva / Nhandeva).
Mito Suruí (Paiter) – O Roubo do Fogo por Orobab
Povo: Suruí (Paiter), Rondônia.
— Ailton Krenak. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. Companhia das Letras, 2019.
— Ailton Krenak. O Amanhã Não Está à Venda. Companhia das Letras, 2020.
— Daniel Munduruku. Histórias que Eu Vivi e Gosto de Contar. Callis, 2017.
— Daniel Munduruku. Meu Avô Apolinário: Um mergulho no Rio da (minha) memória. Companhia das Letrinhas, 2018.
— Kaká Werá. A Árvore do Tempo. Peirópolis, 2019.
— Kaká Werá. Tupã Tenondé: A Criação do Universo, da Terra e do Homem segundo a Tradição Oral Guarani. Peirópolis, 2001.
— Eliane Potiguara. Metade Cara, Metade Máscara. Global Editora, 2018.
— Eliane Potiguara. O Pássaro Encantado. Paulinas, 1998.
Material SME
RIO DE JANEIRO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Gerência de Relações Étnico-Raciais. Guia Educação para as Relações Étnico-Raciais: 20 anos da Lei nº 10.639/03. Rio de Janeiro: SME/Gerer, [2023]. (Material que orienta o uso de narrativas e mitos indígenas na prática pedagógica antirracista, com atividades para valorização das culturas originárias em diferentes etapas do ensino). 
RIO DE JANEIRO (Município). Secretaria Municipal de Educação. Gerência de Relações Étnico-Raciais. Guia Educação para as Relações Étnico-Raciais: Volume 2 – Lei nº 11.645/08. Rio de Janeiro: SME/Gerer, 2025. (Complementa o guia anterior com ênfase em narrativas indígenas, incluindo lendas e mitos para o trabalho transversal no currículo, promovendo o diálogo intercultural e o combate ao apagamento cultural).
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