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Por que sabemos tão pouco sobre mulheres artistas brasileiras?
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Publicado por Tamara Campos em 06/03/2026

Há uma falta de reconhecimento das mulheres na história ocidental em todas as áreas e isso se reflete também na arte e na cultura, pois o silêncio foi imposto historicamente de forma sistemática às mulheres, que foram anuladas enquanto sujeitos históricos.  Marie-Anne Pierrette Paulze foi a esposa do famoso pai da Química Moderna, Lavoisier. Ela lia em sete idiomas, ao contrário de seu marido, que lia apenas em francês. Dessa forma, ela traduziu uma série de textos sem os quais o químico jamais teria criado as teorias que o notabilizaram, mas pouco ouvimos falar dela. No campo das artes, Camille Claudel ousou seguir por um caminho diferente de seu tutor, Auguste Rodin. Ela acabou sem apoio, desacredita no mundo da arte e por seus familiares e morreu em um hospício, após mais de três décadas internadas, mesmo que nunca tivesse sido diagnosticada nenhuma patologia mental grave em Camille.  

Quando somos indagados sobre as pinturas mais famosas da humanidade, rotineiramente lembramos de “Noite estrelada”, de Van Gogh, “As Meninas, de Velazquez”, “A menina com brinco de pérola” de Vermeer, ou o clássico a “Monalisa”, de Da Vinci. Mas o que essas obras têm em comum? Todas foram pintadas por artistas homens e europeus. E quatro dessas cinco obras retratam a mulher. Ou seja, a mulher é musa e objeto de retratação artística, mas não autora das obras de arte. E isso ocorreu durante muitos séculos, tendo o movimento feminista, sobretudo a partir de 1970, contribuído muito para mudar esse cenário.  

Já existiam quadros e artistas homens consagrados, quando as mulheres puderam começar a sua formação. É só na virada do século XIX para o XX que as mulheres são autorizadas a aprender pintura formalmente em nosso país. Além disso, as aprendizes não podiam estudar anatomia humana a partir dos nus artísticos, pois foi algo tido como escandaloso para as mulheres durante muito tempo.  

Se lembrarmos ainda que as mulheres colocavam o nome dos mestres como autores de suas obras e que eram encaradas apenas como amadoras, ou ainda, que quando casavam precisavam abandonar o ofício, ficam nítidos os diversos obstáculos que impediram, como uma grande historiadora da arte costumava dizer, que tivessem existido grandes mulheres artistas. Vale lembrar também que muitas foram difamadas e tiveram a reputação anulada por simplesmente incomodarem os homens artistas, como a já citada Camille Claudel, mas muitas outras, como Julieta de França ou Abigail de Andrade, para dar dois exemplos em nosso país.  

Se formos pensar no cenário brasileiro, quem são as grandes pintoras brasileiras? Conseguiu lembrar alguém sem ser Tarsila do Amaral ou Anita Malfatti?  

Nesse ínterim, percebemos o papel da memória social. O fato de não lembrarmos outras artistas, para além do Modernismo, não quer dizer que elas não tenham existido. A memória social é esse movimento que fazemos com os pés no presente, olhando para o passado, mas já pensando num futuro melhor que queremos construir. Por isso memória não é só passado, é luta simbólica que travamos no tempo presente.  

E para provar que na década de 1920 nem só de Tarsilas e Anitas a arte brasileira vivia, vale mencionar Georgina de Albuquerque, que foi a primeira mulher a pintar uma tela histórica, foi uma das primeiras professoras da prestigiada Escola Nacional de Belas Artes e a primeira diretora mulher da instituição. Ela foi uma pioneira e rompeu com o papel recorrente que defendia que o papel da mulher nas artes era o de musa inspiradora ou modelo.  

Portanto, quando resolvemos vasculhar em arquivos e construir uma memória, mesmo que a partir das ruínas e cacos de informação, podemos demonstrar que a mulher também foi artista, mas, especialmente, que o próprio sistema da arte impedia que ela fosse reconhecida dessa forma. A mulher sempre atuou no espaço público, como já demonstram, há mais de uma década, os trabalhos no campo da História das Mulheres. 

Assim, é preciso, em primeiro lugar, reconhecer que existem pré-conceitos de gênero que foram sendo estruturados há séculos. Quando escrevemos uma carta de recomendação classificando o homem como brilhante ou inteligente, mas a mulher como esforçada e compromissada, talvez estejamos reforçando esses preconceitos de gênero. Quando pré-assumimos que uma mulher não será boa em matemática ou física, podemos estar indo ao encontro dos preconceitos de gênero. Ao não concebermos a possibilidade de uma mulher ser bonita e inteligente podemos estar reforçando preconceitos. Os preconceitos de gênero são estruturais e estão presentes em todas as esferas sociais. Nosso primeiro passo é reconhecermos isso, pois só transformamos o problema depois que sabemos de sua existência.  

É necessário que cada vez mais pintoras, artistas, diretoras de cinema, escritoras mulheres. Os jogos de sentido quando a mulher é autor pode ser bem distinto em relação ao homem. Por exemplo, vou aproveitar o exemplo do óleo sobre tela mencionado de Georgina de Albuquerque, que foi o primeiro quadro histórico pintado por uma mulher, em 1922 e foi chamado de “Sessão do Conselho de Estado”.  

A pintora mantém questões fundamentais da pintura histórica, como dimensões grandes, pois estas telas eram maiores que as convencionais e a tematização de um evento histórico, no caso a Proclamação da República.  Mas inova, ao trazer uma heroína feminina, no caso, a princesa Leopoldina, além de ser uma cena interna, de negociação em gabinete, que se diferenciava das cenas clássicas de guerra de alguns quadros históricos. 

As figuras masculinas centrais convergem em direção à Leopoldina, que está em primeiro plano, junto com os homens. Assim, ela surge como alguém de decisão, e não marginal, como no relato histórico, em que apenas parece fazer coro. Além disso, Georgina demonstra que política também se faz no espaço privado, com serenidade e brinca com as dimensões de público e privado, demonstrando que a mulher fazia política mesmo no espaço privado. Isso ajuda a trazer novos sentidos para o evento, para a representação da mulher e para o jogo político, inclusive colaborando para, simbolicamente, repensar de algum modo os preconceitos de gênero.  

Por isso as representações de mulheres autoras são tão importantes, ao permitir novos olhares e reflexões. Isso também pode contribuir para as persistentes desigualdades econômicas no campo, pois as mulheres no campo da cultura ganham, em média, apenas 67% dos salários dos homens, contra 82,8% na totalidade de outros setores (IBGE, SIIC 2018).  

A informalidade e sazonalidade de segmentos da cultura também pesam mais sobre mulheres, geralmente impactadas pela divisão desigual de tarefas domésticas e familiares. Mas só mudamos esse cenário com mais mulheres em posições de liderança, alavancando as discussões e puxando outras mulheres, além e termos o apoio dos homens, a fim de que eles entendam que o pedido é apenas por direitos iguais: nem mais e nem menos do que em relação ao que eles possuem.  

Neste sentido, é necessário ter apoio para as mulheres, e não só apenas no âmbito familiar, mas no mercado de trabalho, cena cultural e apoio governamental. 

A história das mulheres passa por restrições, punições, silenciamentos, mas estamos, pouco a pouco, reescrevendo novas histórias e cada linha nova que escrevemos, cada novo passo que damos, pavimentamos o caminho das próximas.  Apesar das barreiras, o medo ou o discurso que procura subjugar a mulher não pode nos impedir de avançarmos rumo à equidade.  Li num livro que falava sobre as artistas periféricas, que “A guerrilha mais radical, talvez, seja a da articulação coletiva e não ter vergonha de pedir ajuda”. O hiato que existe não deve ser encarado como espaço de ausência, mas um campo aberto de possibilidades, incluindo a de contar novas histórias. 

 

Tamara Campos é professora do PPGHCA Unigranrio e Jovem Cientista Mulher pela FAPERJ. Pesquisa Arte, memória e relações de poder  

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