O que fazem por aí?

A incorporação da IA na Educação Básica inaugura um novo paradigma pedagógico em cujo contexto ensino-aprendizagem passam a ocorrer ecossistemas híbridos, mediados por algoritmos, dados e interações ser humano-máquina.

Esse movimento global, impulsionado pela democratização do acesso à IA, principalmente, com a rápida popularização das IAs generativas, exige das redes de ensino, gestores e professores.

  • um posicionamento ético frente ao uso dessas novas tecnologias;
  • o desenvolvimento de novas competências e habilidades técnicas;
  • a compreensão conceitual de impactos, riscos e benefícios da integração de tal tecnologia à educação.

O olhar pedagógico diante de novas formas de produção do conhecimento, avaliação e autoria é essencial para formar as novas gerações. 

As experiências internacionais analisadas neste mapeamento, notadamente as lideradas por organismos como Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – Unesco, Paris (FR), 2021; Escritório do Superintendente de Instrução Pública de Washington – Ospi, Washington D.C. (EUA) 2024; Educate Ventures Research – EVR, Londres (RU), 2022; e Departamento de Educação do Governo Australiano – DoE, Camberra (AU), 2023 apontam para um consenso:

A IA deve ampliar o potencial humano e não o substituir, assegurando equidade, transparência, segurança e sentido educativo em todas as suas aplicações.

Nesse contexto, este mapeamento se propõe localizar os temas mais discutidos quando se trata de cuidados e boas práticas para o uso seguro e responsável da IA na educação, principalmente, na Educação Básica, com o objetivo de oferecer caminhos para a integração da IA às redes de ensino brasileiras.

Aqui iremos identificar:

  • os princípios norteadores; e
  • os eixos de governança e práticas pedagógicas.

Essa identificação parte dos destaques em termos de coerência ética, eficácia formativa e alinhamento com as competências do século XXI. Mais que uma compilação de iniciativas, este módulo constitui um instrumento estratégico para orientar políticas públicas, formações docentes e processos decisórios sobre adoção tecnológica, contribuindo para que o uso de IA na escola fortaleça o protagonismo humano, a justiça social e o direito à aprendizagem em tempos de transformação digital.

O mapeamento fundamenta-se em um conjunto de referenciais internacionais e nacionais que refletem o estado da arte das discussões, frameworks e práticas emergentes sobre o uso da inteligência artificial na Educação Básica.

Plano internacional

Neste plano, destacam-se documentos orientadores e guias técnicos de alta relevância:

Documentos e guiasRelevância/contribuição
Artificial intelligence and the future of teaching and learning: insights and recommendations (US Department of Education, 2023). Orienta o uso responsável da IA em processos de ensino, aprendizagem e formação docente.
Human-centered AI guidance for K-12 public schools (Ospi, 2024). Introduz o modelo Human-AI-Human (H-AI-H) e propõe diretrizes práticas para a adoção ética e centrada no humano da IA em escolas.
AI for school teachers (Luckin, George & Cukurova, 2022). Apresenta o framework, voltado à preparação institucional e à governança ética do uso de tecnologias de IA no ambiente educacional.
Artificial intelligence risk management framework (AI RMF 1.0), desenvolvido pelo National Institute of Standards and Technology (Nist, 2023). Estabelece parâmetros para mitigação de riscos e conformidade ética no uso de IA.
Australian framework for generative AI in schools (Department of Education, DoE, 2023). Propõe uma abordagem nacional para orientar escolas na adoção pedagógica de ferramentas generativas.
Teach AI toolkit (2023–2024). Articula recomendações de organismos multilaterais, como a Unesco, o WEF e a OCDE, para o desenvolvimento de políticas de AI Literacy e integração curricular da inteligência artificial nos sistemas de ensino.

Boas práticas nacionais

No contexto nacional, o mapeamento considera iniciativas institucionais que vêm consolidando um ecossistema emergente de diretrizes e práticas voltadas ao uso da IA na educação. Entre elas, destacam-se:

Documentos e guiasRelevância/contribuição
O evento e relatório IA na educação básica, construindo referenciais nacionais (Ministério da Educação – MEC, 2025). Marca a mobilização do governo federal e de universidades públicas na formulação de referenciais específicos para o contexto brasileiro.
Relatório de pesquisa nacional sobre o uso da IA na educação básica (Instituto Significare e UTFPR, 2024). Analisa percepções, usos e desafios enfrentados por professores de diferentes redes e etapas de ensino no país.

Metodologia

A metodologia adotada combinou mapeamento documental e análise de conteúdo, com o objetivo de identificar orientações replicáveis de uso da IA na Educação Básica. Foram analisados documentos produzidos entre 2021 e 2025, priorizando materiais que apresentassem foco em e aplicabilidade pedagógica.

O processo metodológico foi estruturado em três etapas:

1

Identificação e seleção das fontes

levantamento de marcos regulatórios, frameworks técnicos, relatórios e publicações acadêmicas de referência tanto no cenário internacional quanto no nacional, com ênfase na.


Análise e extração de boas práticas

leitura analítica das fontes com o objetivo de mapear as principais orientações que compõem tais documentos.

2

3

Categorização e comparação

sistematização das evidências com base em palavras-chave e categorização de eixos temáticos.

A abordagem seguiu o princípio da triangulação de fontes, articulando diretrizes globais (Unesco, Ospi, Nist, Educate e TeachAI) e nacionais (MEC, CNE, AGU, UTFPR e Instituto Significare). Essa triangulação permitiu identificar tendências convergentes como a defesa da IA como ferramenta de ampliação cognitiva e ética e lacunas estruturais especialmente relacionadas à formação docente e à equidade de acesso. O resultado é uma síntese interpretativa que oferece um referencial sólido para orientar políticas públicas, guias pedagógicos e estratégias institucionais de adoção da IA na Educação Básica brasileira.

Resultados

A análise das boas práticas mapeadas foi organizada em cinco categorias analíticas principais, concebidas a partir da triangulação entre frameworks internacionais (Unesco, Ospi, Educate, Nist e TeachAI) e referenciais brasileiros (MEC, CNE, Instituto Significare, AGU e Ebia).

Cada eixo reflete um conjunto de dimensões críticas para a implementação ética, pedagógica e sustentável da IA na Educação Básica, permitindo tanto a comparação entre modelos quanto a identificação de avanços e lacunas no contexto nacional.

As categorias foram avaliadas a partir de critérios de análise qualitativa (clareza conceitual, coerência ética, aplicabilidade pedagógica, evidência de impacto e potencial de escalabilidade), buscando responder à questão orientadora do mapeamento:

Quais práticas e frameworks de IA na Educação Básica apresentam consistência ética, eficácia pedagógica e pertinência para o contexto educacional brasileiro?

A tabela a seguir mostra esse resultado.

Eixo analíticoDescrição da dimensãoCritérios de avaliaçãoIndicadores interpretativos
1.    Governança ética e regulatória Refere-se a princípios, políticas e estruturas institucionais que garantem o uso responsável, transparente e seguro da IA em ambientes educacionais. •    Existência de políticas públicas ou diretrizes específicas;
•    Mecanismos de transparência e prestação de contas; e
•    Frameworks de gestão de risco (Nist, AGU e Ebia).  
1.    Presença de frameworks institucionais de ética em IA
•    Códigos de conduta; 
•    Comitês ou instâncias de governança; e
•    Protocolos de proteção de dados. 
2.    Formação docente e letramento em IA 
•    Capacitação de professores e gestores para compreender, usar e ensinar IA de forma crítica e pedagógica;
•    Programas estruturados de formação continuada;
•    Integração curricular de IA na formação inicial de docentes;
•    Estratégias de AI literacy (TeachAI, Ospi). 
2.    Formação docente e letramento em IA Trata da capacitação de professores e gestores para compreender, usar e ensinar IA, de forma crítica e pedagógica.  •    Programas estruturados de formação continuada;
•    Integração curricular de IA na formação inicial de docentes; e
•    Estratégias de AI literacy (TeachAI, Ospi).
•    Oferta de trilhas formativas, microcredenciais, recursos abertos e repositórios nacionais; 
•    Presença de planos de formação docente (MEC, UTFPR, CNE).
3.    Práticas pedagógicas e inovação didática Abrange o uso de IA como ferramenta de apoio ao ensino, aprendizagem e avaliação, respeitando a autoria e a criatividade humana. •    Evidências de uso pedagógico da IA (planejamento, personalização, feedback);
•    Ênfase na coautoria ser humano-máquina; e
•    Conexão com aprendizagem ativa e avaliação formativa.
•    Experiências de ensino mediadas por IA;
•    Práticas de escrita assistida;
•    Uso de plataformas adaptativas; 
•    Projetos integradores e interdisciplinares.
4.    Inclusão e equidade digital Considera o acesso justo, acessibilidade tecnológica e mitigação de desigualdades no uso de IA nas escolas.  •    Políticas de inclusão digital e acessibilidade;
•    Equidade no acesso à infraestrutura tecnológica; e 
•    Estratégias de redução de vieses algorítmicos.
•    Programas de conectividade escolar; 
•    Iniciativas de IA acessível (Educação Especial, EJA, EAD); e
•    Diretrizes de uso inclusivo e antivieses.
5.    Avaliação, autoria e integridade acadêmica Analisa abordagens de avaliação e produção textual com IA valorizando a transparência e a legitimidade da autoria. •    Existência de rubricas e protocolos que preveem o uso da IA.
•    Estratégias de ensino sobre ética, autoria e coautoria.
•    Monitoramento da integridade acadêmica.
•    Diretrizes sobre atribuição de coautoria;
•    Práticas de verificação ética;
•    Uso pedagógico de detectores e relatórios reflexivos.

O vídeo a seguir conclui esse mapeamento, trazendo as evidências e questões que ficam latentes: