A sensibilidade de se colocar no lugar do outro e se propor a enxergar o mundo sob a perspectiva de seus alunos, aliada à perseverança e ao amor à profissão é, certamente, o que aproxima Priscila Eiras da Cunha, professora do Projeto de Aceleração 2A da E.M. Pastor Miranda Pinto (Cachambi) dos estudantes e faz dela uma professora – na linguagem desses jovens – “fechamento”.
A descoberta da vocação
Carioca, criada na região do Engenho de Dentro, Priscila ingressou na Universidade Federal de Juiz de Fora, em Minas Gerais, inicialmente para cursar Comunicação Social, com ênfase em Publicidade e Propaganda. No entanto, em um ano estudando e trabalhando nessa área, decepcionou-se com o mercado profissional.
Na época, Priscila dava aulas particulares – de Química a Língua Portuguesa – para melhorar seu orçamento. E, a partir da sugestão de um colega, decidiu pedir transferência para o curso de Letras (Português – Inglês), na mesma universidade. “Foi paixão à primeira vista!”, recorda-se.
Um tempo depois, Priscila retornou ao Rio, onde concluiu a faculdade e atuou como operadora de telemarketing durante anos, até dedicar-se exclusivamente à educação. Como professora, trabalhou por seis anos em uma turma de Educação de Jovens e Adultos; em cursos preparatórios para o vestibular e para ingresso em escolas militares, com foco em Redação; e na rede estadual, onde também está até hoje.
Em 2012, entrou para a Rede Municipal, na E.M. Francisco Jobim, localizada no bairro de Todos os Santos, na região do Grande Méier. Nessa escola, assumiu uma turma do Projeto Realfabetização. “Nessas turmas, além do conteúdo em si, é preciso trabalhar muito os valores”, explica a professora, que muitas vezes voltava para casa chorando, devido a estresses em sala de aula. Para desabafar essas angústias, criou, àquela época, um blog. “Ou eu gastava meu dinheiro com terapia, ou colocava pra fora o que estava sentindo”.
Despertando a consciência e elevando a autoestima dos alunos
Depois da E.M. Francisco Jobim, Priscila foi chamada para assumir uma turma do Projeto de Aceleração 2A – que atende alunos com defasagem idade/ano de escolaridade, oriundos do 6º ano e dos projetos Realfabetização 2B e Aceleração 1B na E.M. Pastor Miranda Pinto, onde trabalha atualmente.
Mestranda em Educação (com ênfase em Educação Periférica) na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), Priscila sempre buscou o apoio e a aproximação com os pais e responsáveis pelos alunos – o que ela considera fundamental nessa “luta”.
“Sou adotada, fui criada por uma família de brancos, estudei, me formei. Mas onde estavam, naquela época, os pais dos meus alunos? Muitos, moradores da periferia, não tiveram acesso à educação. O foco dos nossos alunos e de suas famílias é o trabalho. Se nós, professores, não tentarmos conhecer o mundo deles, nos inserir na realidade do aluno, não conseguiremos trabalhar”.
Segundo Priscila, sua turma na Rede Municipal é composta por alunos de 14 a 15 anos, muitos sem estrutura familiar sólida, sendo 90% negros. “Levo certa vantagem nessa aproximação por ser negra, como a maioria deles. Os alunos olham para mim e se identificam porque eu pareço com a mãe, com a tia”.
Envolvida no Movimento Negro na época da faculdade, a professora destaca a importância da valorização da história e da cultura afrobrasileira, inclusive no resgate da autoestima e do orgulho de seus alunos. “A mitologia africana, por exemplo, é linda. Tento desmistificar a ideia de que ‘o que é negro é ruim’. Quero levar a eles essa causa para terem consciência da negritude deles, para despertar em cada um o desejo de tornarem-se protagonistas de suas próprias histórias. E mostrar que essas histórias podem ser muito bonitas.”