Repleta de trabalhos de alunos, expostos em todas as paredes – alguns feitos há mais de dez anos –, a sala de aula de Janete Martins Bloise, professora de Artes da E.M. Rivadávia Corrêa (1ª CRE), na Cidade Nova, é colorida e vibrante. Mandalas, iluminuras, releituras de pintores notáveis, colagens. Um lugar onde é impossível estar e não sentir vontade de pintar, desenhar, cortar papéis, criar. Para muitos adultos seria, ainda, como uma porta de entrada para um baú de boas lembranças da época de escola.
A sala, que é a mesma desde que Janete entrou na escola, diz muito sobre a professora e suas aulas. Ela não poupa esforços e recursos para propor atividades e estimular, das mais variadas maneiras, a criação e produção de seus alunos. “Tenho tanto orgulho do que eles fazem que não consigo me desfazer dos trabalhos”, confessa.
A dinâmica da aula proposta por Janete não é convencional. “Eles trabalham em grupos e eu vou, mesa a mesa, sentando e conversando com cada um, olhando no olho, para seduzir o aluno e envolvê-lo na minha proposta”, explica a professora, dizendo ter adotado essa prática para evitar que os alunos se dispersem.
Extraclasse, ela costuma organizar visitas dos estudantes a museus e centros culturais do centro da cidade – onde a escola está localizada –, relacionando-as com a temática tratada em sala de aula. “Depois de irmos a uma exposição sobre o cubismo, por exemplo, contei à turma como foi o período azul de Picasso. Uma fase em que ele estava triste e suas obras tinham predomínio dessa cor. Depois, pedi que os alunos se expressassem e produzissem suas próprias fases azuis”, explica.

“A arte não é muito valorizada, mas valorizar não significa aplicar uma prova. Isso eu não costumo fazer. Quero é que todos se envolvam.”
Em sala de aula, Janete propõe atividades de meditação (sobretudo quando os estudantes chegam agitados do recreio) e produz vídeos dos alunos, como na vez em que os filmou entrevistando um ao outro sobre o que traz paz e o que traz felicidade para cada um. As produções são exibidas na mostra de final de ano, organizada na escola.
“Trabalhar com adolescentes me alimenta muito. Estou sempre inovando e aprendendo com eles.”
Uma história de arte e educação
Quando jovem, Janete formou-se no curso Normal. Por gostar muito de desenhar e pintar, decidiu entrar para uma faculdade de Artes – já projetando trabalhar como professora.
Até isso acontecer, atuou como corretora de seguros em uma empresa de seu pai. “Não era bem do que eu gostava, mas era legal porque trabalhava em família.”
Então, resolveu prestar um concurso para a Rede Municipal e, aprovada, deixou as atividades de corretora de lado. Trabalhou nas escolas municipais Charles Dickens (9ª CRE), em Campo Grande, e Alberto Rangel (7ª CRE), na Cidade de Deus, até ir para a E.M. Rivadávia Corrêa, onde está há mais de dez anos e dá aula para turmas do 7º ao 9º ano.
Na Rivadávia, Janete trabalha em horário integral desde 2010. No mesmo ano, passou a lecionar também a disciplina Projeto de Vida. “Nessas aulas, o objetivo é fazê-los se conhecerem mais, pensar sobre o que querem ser, e o lado lúdico da arte ajuda muito nisso. Todos nós nos descobrimos a cada dia”, pontua a professora, que é pós-graduada em Arteterapia.
“Percebo que as crianças mais quietas se encontram mais nas artes plásticas. A arte mexe muito com autoconhecimento e autoestima. Durante os conselhos de classe, noto, por exemplo, que tenho uma visão diferenciada do aluno, em relação a outros professores.”
Janete Bloise, a artista plástica

Fora da escola, Janete se dedica ao trabalho como artista plástica. Em Projetando as Cidades com Arte, ela faz fotografias da cidade com o celular, sob diferentes perspectivas e olhares. Depois, imprime a foto de forma espelhada e, então, a transforma com pintura e desenho, promovendo um diálogo entre as paisagens da cidade e a natureza.

E vem trabalhando a mesma proposta com os alunos. “Pedi que eles escolhessem algumas fotos do centro da cidade, do Morro da Providência, para aplicarmos a mesma técnica. Minha ideia é, um dia, fazer uma exposição coletiva: minha e deles.”
Nos meses de agosto e setembro, Janete exibiu suas obras na exposição Ecos da Arte, ao lado da artista mineira Suze Vilas Bôas, em um bar-galeria no Morro da Conceição. Recentemente, ela também publicou seus trabalhos na revista bilíngue Arte & Estilo (edição julho/2016). “Se você não mostrar seus trabalhos, ninguém vai conhecer. A partir da exposição e da publicação, surgiram ideias e planos muito interessantes.”
Os planos contam com o apoio da filha Tianna, que, atualmente, está estudando na Escócia. “Ela é engenheira, mais exata, e coloca meus pés no chão. Quero aprender inglês para visitá-la e conhecer galerias de arte lá fora.”