Cascadura é um bairro residencial e de comércio agitado, localizado na Zona Norte do Rio. Sua principal característica é a grande quantidade de transporte público – ônibus e trem – que corta suas principais avenidas, fazendo do bairro um ponto de passagem e de transbordo para milhares de pessoas, diariamente. Essa vocação de Cascadura começou a ser construída em meados do século XIX, mais precisamente em 1858, quando a primeira estrada de ferro do país – a E. F. Dom Pedro II (hoje Central do Brasil) – foi inaugurada. Uma das estações entregues nessa data foi a de Cascadura, num ponto deserto da antiga Estrada Real de Santa Cruz, atual Avenida Dom Hélder Câmara.
A estação de trem da localidade atraía o contingente de moradores das fazendas da região, o que incluía não apenas aquelas que deram origem aos bairros limítrofes de Madureira, Campinho, Engenheiro Leal, Cavalcante, Praça Seca e Quintino Bocaiúva. A população que morava em Jacarepaguá também se servia da estação, perto da qual foram construídas cocheiras – onde se podia deixar os cavalos e os burros que serviam de meio de transporte até o local – e abertos pontos comerciais que, com o tempo, transformaram Cascadura no maior entreposto do subúrbio, durante a segunda metade do século XIX.
Em 1875, quando a E. F. Dom Pedro II já havia inaugurado novas estações e chegado a Minas Gerais e ao Vale do Paraíba paulista, a implantação de linhas de bonde de tração animal, ligando Jacarepaguá a Cascadura, fez aumentar ainda mais o fluxo de pessoas que se dirigiam para lá, a fim de atingir outras localidades. Nessa mesma época, graças à Lei da Terra de 1850, várias fazendas vinham sendo fracionadas em chácaras e lotes menores, expandindo o povoamento da cidade para a direção dos subúrbios. A estação de trem foi, assim, uma espécie de marco inicial para o adensamento populacional e o estabelecimento do comércio na região.
Durante algumas décadas, Cascadura perdurou como o principal ponto comercial do subúrbio e segundo mais importante da cidade, depois do Centro. Segundo artigo publicado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Administração (Anpad), entrevistas com antigos moradores e comerciantes constataram que o Mercado de Madureira iniciou suas atividades em 1914, em um local que hoje pertence a Cascadura. Os produtos hortifrutigranjeiros produzidos pelas fazendas e sítios da região eram levados até o mercado por meio de carroças e lombo de burro. O acesso era feito pela Rua do Campinho (atual Avenida Ernâni Cardoso), que se transformou na principal via do bairro.
A presença de imigrantes portugueses era bastante intensa na região. Ainda de acordo com a Anpad, o Mercado de Madureira foi fundado basicamente pelos lusos, além de alguns poucos brasileiros e italianos. Uma das versões sobre a origem do nome do bairro, inclusive, vincula “Cascadura” a um comerciante português, que assim teria sido apelidado em função de sua fisionomia fechada e sua fama de pão-duro.
Há ainda outras duas versões sobre a origem do nome do bairro. Uma diz que a inglesa Maria Graham escreveu uma carta que narrava o passeio que havia feito à Fazenda Real de Santa Cruz, em 1824, e, nela, fazia referência ao local como “Casca D’Ouro”. Outra versão diz que o nome surgiu com os operários que construíram a Estrada de Ferro Dom Pedro II, que batizaram a pedreira do local de “Cascadura”, em razão das dificuldades que tiveram para abri-la com picaretas.
Patrimônio arquitetônico
Com o adensamento populacional em Cascadura, ergueu-se a primeira capela do bairro, dedicada a Nossa Senhora do Amparo, por volta de 1870. As festas religiosas, as quermesses e as procissões promovidas pela igrejinha logo viraram atividades sociais que mobilizavam os moradores. Em 1883, a localidade foi escolhida para receber o primeiro hospital especializado no tratamento de tuberculose da cidade: o Hospital Nossa Senhora das Dores, vinculado à Santa Casa da Misericórdia, instalado no alto de uma colina situada na antiga Chácara do Ferraz, que havia sido comprada pelo barão de Cotegipe.
Hoje, a casa de saúde continua funcionando, mas mudou o foco de atendimento para a área de psiquiatria. Colada ao hospital está a Capela Nossa Senhora das Dores, com seus vitrais franceses. A ermida foi construída em 1913 pelas freiras que atendiam os pacientes e constitui-se, junto com o hospital, num belo e bem-cuidado patrimônio arquitetônico do bairro. Algumas outras construções antigas de Cascadura, com muitas histórias para contar, ainda resistem ao tempo, como é o caso do prédio da Light, onde funcionou a primeira escola do bairro, o Colégio 1º de Julho.
Arrastão de Cascadura
Antes de virar uma escola de samba, em 1973, o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Arrastão de Cascadura era um grande bloco, o Unidos de Cascadura, que animava o carnaval do bairro. Começou a desfilar em 1974, no grupo três, no qual conquistou o campeonato dois anos depois, com o enredo Boitatá, o Fantástico Ser das Riquezas. No ano seguinte, já no grupo dois, nova vitória com o enredo Um Talismã para Iaiá garantiu seu desfile no grupo de elite do carnaval carioca, em 1978. A escola foi rebaixada e nunca mais voltou a desfilar no grupo especial.