A partir da fase de sensibilização, os estudantes (volto a dizer: em boa parte nordestinos) logo se posicionaram de forma contundente e bastante emocionada contra a xenofobia amplificada pelas redes sociais. Esse momento de mobilização coincidiu com o convite informal que fiz para que nossos estudantes se debruçassem em torno de algumas indagações curtas e diretas do tipo:
Logico que parte dessas indagações/provocações foi respondida imediatamente, dado o retumbante pertencimento que tomou conta da garotada; outras, foram separadas para ser respondidas após os desdobramentos das aulas de História/Geografia.
A pedagogia por projetos sempre me moveu pela capacidade de dinamizar e trazer mais significância ao processo de ensino-aprendizagem. Nesse modelo de pedagogia, sempre considerei o trabalho a partir da identidade um potente aliado para aumentar a efetividade e o engajamento dos estudantes no espaço escolar. Sou um entusiasta de um currículo-espelho, por meio do qual o estudante possa se enxergar.
Mas, dentre todas as referências utilizadas para trazer à luz este trabalho, destaca-se a obra Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo (1999), de Tomaz Tadeu da Silva que, além de discutir as concepções relacionadas ao tema – da tradicional às pós-críticas –, argumenta que currículo, além de ser um campo de estudo acadêmico, é um espaço de poder que reflete e reproduz as desigualdades sociais e que é nessa conjugação desigual entre grupos hegemônicos e oprimidos que se forma a nossa identidade.
Essa perspectiva do autor sobre o conceito de identidade foi fundamental para desmistificar a visão folclórica associada ao termo. Currículo e trabalho pedagógico devem ser construídos a partir do olhar atento sobre identidade, tratando-a como inevitavelmente atrelada às relações de poder inscritas na sociedade. Ou seja, escola e sala de aula não estão isentas das contradições sociais.
Passadas as eleições de 2022, as redes sociais foram invadidas por ataques à população nordestina no Brasil. Boa parte desses insultos foi proferida por grupos concentrados na região Centro-Sul do país que tentavam desqualificar o voto, subalternizar a inserção dos nordestinos no país e deslegitimar sua atuação enquanto cidadãos.
Bem, o Peja (Programa de Educação de Jovens e Adultos) da E.M. Gonçalves Dias, onde trabalho, tradicionalmente concentra um percentual significativo de migrantes nordestinos ou de seus descendentes diretos. O que não surpreende, se contextualizarmos os processos de ocupação territorial do bairro de São Cristóvão, a partir da segunda metade do século XX.
A Escola Gonçalves Dias (uma das chamadas Escolas do Imperador), desde sua fundação em 1872, foi ocupada pelas populações oprimidas, nos ciclos históricos que se sucederam. Desde descendentes de negros escravizados recém-libertos do final do século XIX à população fragilmente inserida pela urbanização brasileira, a Gonçalves Dias se habituou a resistir.