O projeto teve início com a leitura do livro Rê-Tinta e o pé de Jamelão com a turma do PréI. A narrativa, que apresenta a relação de uma menina com sua família e suas memórias, mobilizou intensamente as crianças. Durante a leitura, demonstraram atenção às características físicas das personagens, às vestimentas e às lembranças da avó, que rapidamente se tornou a figura mais marcante da história. As crianças passaram a relacionar a narrativa com elementos do território onde vivem, especialmente o pé de jamelão próximo à creche. A partir dessa aproximação, surgiu a pergunta: “De onde veio a primeira semente de jamelão?”. Uma criança respondeu: “Da África! Quem trouxe foi a avó africana!”. Nesse processo, as crianças formularam hipóteses, construíram relações espaciais e ampliaram suas percepções sobre deslocamentos entre territórios. Quando questionadas sobre como a avó africana teria chegado ao Brasil, responderam: “Ela colocou no bolso e trouxe para cá”. Foi assim que nasceu coletivamente a personagem “Avó Africana”. A proposta buscou fortalecer o diálogo das crianças com a ancestralidade africana, valorizando memórias, saberes e culturas historicamente invisibilizadas. Como base teórica, dialogamos com o pensamento de Beatriz Nascimento, que compreende a ancestralidade como força viva de pertencimento, continuidade histórica e resistência dos povos africanos e afro-brasileiros. Para aproximar ainda mais a personagem da rotina do grupo, criamos uma caixa de correio. Nela chegavam cartas da avó africana, que se apresentava como integrante de uma aldeia Yoruba, na Nigéria, relatando seus saberes como curandeira e contadora de histórias e sua vontade de conhecer a turma. Durante as explorações no pátio, as crianças demonstraram grande interesse pelos insetos encontrados no ambiente. A partir dessa curiosidade, realizamos pesquisas sobre costumes de alguns povos Yoruba e descobrimos receitas tradicionais que utilizavam insetos e eram preparadas em fogão a lenha, exigindo também a coleta de gravetos. Dessa investigação surgiu a proposta do jogo matemático “Receitas da Avó Africana”. Construímos coletivamente um tabuleiro em que cada casa apresentava desafios envolvendo a coleta de insetos e gravetos para ajudar a avó africana em suas receitas. Em algumas casas, as crianças deveriam pegar quantidades específicas de insetos; em outras, coletar gravetos ou comparar quantidades entre os jogadores. Para representar os materiais, criamos desenhos de cupins, larvas, gafanhotos e gravetos organizados em cestos. O objetivo era seguir as orientações das casas do tabuleiro quanto à quantidade de insetos e gravetos a serem coletados e levados até a avó africana. O vencedor seria quem conseguisse entregar a maior quantidade de itens ao final do percurso. Ao longo das partidas, as crianças realizaram contagem oral, reconhecimento numérico, comparação de quantidades, correspondência um a um e estratégias de resolução de problemas.
As crianças demonstraram interesse e envolvimento durante as partidas do jogo “Receitas da Avó Africana”. Além dos participantes, aquelas que aguardavam sua vez também permaneceram atentas às regras, às contagens e às estratégias utilizadas pelos colegas. O jogo favoreceu situações de cooperação, troca de conhecimentos e participação coletiva. Após as primeiras experiências com a turma do PréI, convidamos a turma do MII para jogar conosco. Organizamos um grande tabuleiro no chão do pátio, formando duplas com uma criança do PréI e outra do MII. As crianças se sentiram valorizadas ao ensinar as regras e auxiliar os colegas menores durante as partidas. Ao final de cada rodada, os grupos realizavam juntos a contagem dos insetos e gravetos coletados, observavam os registros feitos pela professora e identificavam as maiores quantidades, reconhecendo os vencedores. O jogo foi apresentado no evento "jogos de cria" e outras turmas poderam jogar.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Livro, que inspirou a personagem do jogo foi Rê-tinta e o pé de jamelão de Estevão Ribeiro
Beatriz Nascimento foi uma referencia sobre ancestralidade. Beatriz Nascimento compreende a ancestralidade como força viva de pertencimento, continuidade histórica e resistência dos povos africanos e afro-brasileiros. Para a autora, a memória negra se mantém na oralidade, no corpo, nas práticas culturais e nas relações comunitárias, mesmo diante das tentativas de apagamento histórico. Inspiradas também pelas reflexões presentes em Ori, buscamos promover experiências em que as crianças reconhecessem a cultura africana como produtora de conhecimento, história e humanidade.