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Boas Práticas
Educação das Relações Étnico-Raciais
KWANZAA: possibilidades de práticas antirracistas e valorização da cultura negra a partir do chão da escola
Informações
Relato
Resultados Observados
UNIDADE DE ENSINO
EM Soares Pereira - 2ª CRE
Avenida Maracanã 1450 - Tijuca
Unidade não vocacionada
Anos Iniciais

AUTORES

LUCIANA LIMA DA MOTA

Mulher negra, pedagoga formada pela UNIRIO e mestre em educação pela UERJ (PROPED), concluindo a especialização em Relações Étnico-Raciais pelo CEFET-RJ em 2026. Foi bolsista PIBID durante a graduação, onde a experiência levou ao encontro da temática antirracista, que segue como objeto de pesquisa até os dias presentes. Atua na SMERJ há oito anos, como PEF - Anos Iniciais, e se debruça sobre temas que envolvam identidades e antirracismo, infâncias negras, e práticas educativas que busquem dialogar com a participação efetiva e ativa das crianças. Ao entender a importância da discussão sobre as narrativas trazidas em sala de aula, compreende-se também a potência de transbordar tais temas para outras esferas além dos muros da escola; e é por esse prisma que a intencionalidade pedagógica conflui: produzir e proporcionar vivências a partir do cotidiano escolar a fim de que contribuam para valorização das diferenças e identidades, sobretudo as das nossas crianças da rede pública municipal.

CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:PEF Anos Iniciais

CAROLINA OLIVEIRA MADUREIRA

Formada em pedagogia, atua há mais de vinte anos na rede municipal de ensino da cidade do Rio de Janeiro como professora de educação infantil e professora dos anos iniciais do fundamental - com ênfase na área de alfabetização. Na rede privada, além de professora, também já atuou como coordenadora, ao tempo que lecionava nas escolas da SME RJ. Em sua prática diária, acredita em um processo de letramento e alfabetização que dialogue com as vivências e narrativas das crianças, alinhadas com a ludicidade e práticas antirracistas.

CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:Professor II

ANOS/GRUPAMENTOS ENVOLVIDOS
1º ano
2º ano
OBJETIVOS
Em consonância com a lei 10.639/03, realizamos com as crianças do 1º e 2º ano dos anos iniciais do fundamental, a abordagem e celebração do Kwanzaa, de forma a tratá-lo a partir de uma perspectiva lúdica e construtiva. Ao apresentar os princípios, que são: umoja (unidade); kujichagulia (autodeterminação); ujima (trabalho coletivo e responsabilidade); ujamaa (economia cooperativa); nia (propósito); kuumba (criatividade); imani (fé), as crianças, em conjunto e individualmente, puderam conhecer a prática afrodiaspórica a partir de materiais audiovisuais, rodas de conversa, atividades coletivas e até mesmo confecções artísticas, incluindo o conceito dos adinkras (que viraram carimbos e estampas). Para finalizar, realizamos uma confraternização como indica o primeiro dia de janeiro, em que compartilhamos comidas típicas da nossa diáspora, bem como trocamos presentes confeccionados à mão, conforme as propostas do Kwanzaa.
HABILIDADES
1º ano - Anos Iniciais - Estimar medições (de comprimento, de massa e capacidade) com unidades de medida não padronizadas (palmo, pé, dedo, passo, xícara etc.).
1º ano - Anos Iniciais - Reconhecer o respeito às diferenças como expressão dos nossos direitos e dos outros.
1º ano - Anos Iniciais - Reconhecer, a partir da leitura do professor, informações explícitas em diferentes gêneros textuais, com mediação.
2º ano - Anos Iniciais - Comparar relações fonema/grafema em diferentes textos, reconhecendo que diferentes grafemas representam um mesmo fonema e que um mesmo fonema pode ser representado por diferentes grafemas.
2º ano - Anos Iniciais - Relacionar o que é medido a metro, a litro e a quilo.
2º ano - Anos Iniciais - Valorizar a existência da diversidade, reconhecendo caracteres identitários básicos e discutindo regras de convivência para diferentes espaços.
PERÍODO DE REALIZAÇÃO
Fevereiro/11/2 até atualmente

Primeiro Momento: Roda de conversa e abordagem de conhecimento prévio; o que dizem as crianças sobre África? Sobre celebração, sobretudo, de fim de ano? As crianças trouxeram suas percepções a cerca de África, algumas referenciaram histórias já lidas (Nina África, Obax, Chuva de Manga, Escola de Chuva), e, rapidamente o assunto circula sobre identidades, negritude, e inclusive, sobre a escravização e a forma como vários povos negros chegaram no Brasil. Mediando a conversa, salientamos a necessidade de se pensar a história de nossos antepassados para além da escravização; conforme até as contações de histórias que fizemos nos indicam, não descendemos de escravos, mas sim de reis e rainhas que foram escravizados. A partir disso, aborda-se o Kwanzaa como uma celebração afrodiaspórica, apresentando-o como uma prática que retoma princípios de comunidade, pautados na cultura negra e no resgate de identidades e sua valorização como algo intrínseco à nossa cultura, também.

Segundo Momento: Princípios do kwanzaa; Apresentamos vídeos em que os princípios são destrinchados, e depois disso, discutimos com as crianças sobre os mesmos, suas importâncias e o que aquilo significa para cada um. Aproveitamos a oportunidade para discutir qual dos princípios eles se identificaram mais, alinhando-os à convivência escolar, questionando a possibilidade de vivenciá-los com mais afinco na nossa rotina em comunidade. No meio da discussão, surgiu o interesse pelos adinkras, que estão presentes na nossa cultura popular (grades de casas antigas, por exemplo), e como também dialogam com os princípios do Kwanzaa. Aqui, atividades interdisciplinares foram aplicadas, com foco em alfabetização, pensamento matemático, e o entrelace histórico geográfico. Por exemplo; uso de mapas, caça-palavras, jogo da forca, quantidades, unidades de medida, figuras geométricas (adinkras), contação de história, recontos, ditados, confecção de carimbos.

Terceiro Momento: Vamos estruturar nosso kwanzaa? De maneira adaptada, confeccionamos painéis, realizamos desenhos de observação de uma kapulana (tecido africano) original, pintamos uma toalha de algodão cru com os adinkras, realizamos carimbos para estampar tecidos a partir da prática (adaptada com isopor) da xilogravura, montamos presentes artísticos para trocar no dia da festa. Aqui, pensamos gênero textuais como cartazes, receitas das comidas consumidas na confraternização, quantidades, sua história, trabalhando bastante a interdisciplinaridade e a participação infantil para inferir suas próprias impressões e narrativas.

Quarto Momento: Vamos celebrar! É dia de festa, com direito a angu, quiabo, frutas e muita comida típica da nossa afrodiáspora, além de danças, músicas e contação de histórias, é claro. E os nossos presentes foram trocados com muito carinho: Enfeites autorais, carimbos feitos à mão e com muita dedicação pelas nossas crianças, com mediação das professoras, de forma a concluir o projeto.

As crianças se envolveram bastante na proposta, ficaram animadas com os adinkras, mas o que de fato movimentou foi o dia em que celebramos o Kwanzaa. Gostaríamos de ter celebrado dia após dia, mas adaptamos para a realidade pedagógica, com entrega de avaliações e provas, além das outras importâncias presentes no currículo, que necessitavam de mais sistematização. Contudo, as crianças compartilharam saberes, colocaram em prática boa parte dos princípios, experimentaram comidas diferentes do seu dia a dia, apropriaram-se de culturas que compõe nossa identidade como seres diaspóricos. Além disso, através do envolvimento, puderam explorar veias artísticas num espaçotempo de valorização das diferenças estéticas, culturais, bem como aprender de maneira lúdica, certas habilidades que ainda precisavam de maior fixação; ao pesar a farinha de milho, ao listar os ingredientes, ao localizar países africanos no mapa, podemos trabalhar a interdisciplinaridade e a valorização das identidades negras.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALVES, Nilda. Políticas e cotidianos em redes educativas e em escolas. XVI ENDIPE - Encontro Nacional de Didática e Práticas de Ensino - UNICAMP - Campinas – 2012.

BRASIL. Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional,

para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática ‘História e Cultura Afro-Brasileira’, e dá outras providências. Diário Oficial

da União, Brasília, 10 jan. 2003. Disponível em: . Acesso em novembro de 2026.

CERTEAU, M.A Invenção do cotidiano: 1. Artes de fazer/ Michel de Certeau; 16. ed. Tradução de Ephhraim Ferreira Alves. - Petrópolis, RJ: Vozes, 2009.

FANON, Frantz. Pele Negra, Máscaras Brancas. Salvador: EDUFBA, 2008

GOMES, Nilma Lino. Cultura Negra e educação. Revista Brasileira de Educação, Maio-Ago. 2003 n 23.

HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 9. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2004.

HALL, Stuart. Da Diáspora. Identidades e mediações culturais. In. SOVIK, Liv (Org.) Belo Horizonte: Ed UFMG; Brasília: Representação da UNESCO no Brasil, 2003. Capítulo 3: Cultura Popular e Identidade. Que "negro" é esse na cultura negra, pp. 335-349.170

HALL, Stuart. Quem precisa da identidade? Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. In: SILVA, TomazTadeu da (Org.);

HALL, Stuart; WOODWARD, Kathryn. Identidade e diferença. A perspectiva dos estudos culturais. Petrópolis: Editora Vozes, pp. 103-133 [1996] 2000.

HOOKS, B. Intelectuais Negras. Revista Estudos Feministas, V.3, nº 2, 1995, p. 454-478. _____. Vivendo de amor. In: Geledes, 2010, s/p. Disponível em: http://arquivo.geledes.org.br/areas-de-atuacao/questoes-de-genero/180-artigos-degenero/4799-vivendo-de-amor

LORDE, Audre. Textos escolhidos de Audre Lorde. [Tradução de tatiana nascimento] Disponível em:.

PASSOS, Mailsa Carla Pinto. Encontros cotidianos e a pesquisa em Educação: relações raciais, experiência dialógica e processos de identificação. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 51, p. 227-242, jan./mar. 2014

PEREIRA, Rita Ribes e MACEDO, Nélia Mara (Orgs.). Infância em pesquisa. Rio de Janeiro: NAU Editora, 2012.

Registros
IMAGENS
Reunião das crianças para a celebração do nosso Kwanzaa
Explicação sucinta do Kwanzaa
Princípios do Kwanzaa
Professoras ao fim do projeto: felizes e realizadas!
Crianças pintando seus adinkras
Crianças degustando o menu da nossa celebração: angu com quiabo ao molho de tomate, farorinha de quiabo, frutas e sucos naturais.
Aluno do 2º ano imprimindo seu adinkra com a xilogravura feita com isopor e tinta guache
Crianças junto aos seus responsáveis, que vieram apreciar a exposição dos trabalhos ao fim do projeto.
Criança explicando para sua tia a atividade realizada
Alguns dos trabalhos desenvolvidos, expostos para apreciação do público
Confecção de Adinkras realizada com tinta de tecido no algodão cru, pelas crianças (e mediação das professoras).
Desenho de observação realizado com giz molhado e papel de lixa. O objeto observado foi uma Kapulana verdadeira, que está no centro da foto.
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