A história da ciência, quando apresentada sob uma perspectiva eurocentrada, tende a reforçar a ideia de que o conhecimento científico surgiu de forma isolada na Grécia Antiga, apagando a contribuição essencial de povos africanos, especialmente os de Kemet (antigo Egito), que estabeleceram bases matemáticas, astronômicas, arquitetônicas e tecnológicas responsáveis por influenciar civilizações posteriores. Diante disso, faz-se necessário propor práticas pedagógicas que descolonizem o olhar científico, ampliem o repertório histórico dos estudantes e evidenciem as contribuições de cientistas e inventores negros que transformaram — e continuam transformando — a sociedade. Utilizar a obra 'História Preta das Coisas', de Bárbara Carine, como fio condutor possibilita aproximar os estudantes de produções científico-tecnológicas negras de maneira acessível, crítica e contextualizada. Assim, o projeto contribui para a promoção de uma educação antirracista, conforme preconizam a LDB, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e a Lei 10.639/2003. O projeto consiste na investigação e apresentação de produções científico-tecnológicas de povos africanos e afrodiaspóricos, articulando saberes ancestrais e contemporâneos a partir de uma perspectiva afrocentrada. Utilizando o livro 'História Preta das Coisas' como referência, os alunos estudaram invenções negras que impactaram o desenvolvimento humano, compreendendo seu contexto histórico, funcionamento e relevância social. Além da pesquisa teórica, as turmas do 1º ao 5° ano foram desafiadas a escolher uma invenção de autoria negra, estudá-la profundamente e, posteriormente, reproduzir, um protótipo, criando uma experiência concreta e significativa. O processo culminou em uma mostra coletiva, na qual os estudantes apresentaram suas produções, explicando o impacto da invenção e destacando o apagamento histórico que muitas dessas contribuições sofreram. É importante destacar que todo o trabalho foi desenvolvido de forma interdisciplinar, envolvendo conhecimentos de História, Ciências, Matemática, Arte, Língua Portuguesa e Tecnologias. Essa abordagem ampliou a compreensão dos discentes, permitindo que percebessem as invenções como produções humanas complexas, atravessadas por múltiplas áreas do saber. A Metodologia se deu da seguinte forma: Leitura mediada de trechos selecionados do livro 'História Preta das Coisas'; Rodas de conversa para discussão das invenções apresentadas e suas origens; Aulas expositivas; Pesquisa escolar sobre inventores e produções tecnológicas negras; Seleção de uma invenção por turma, com investigação orientada sobre seu funcionamento; Construção de protótipos ou modelos que representem a invenção escolhida; Registro do processo por meio de textos e fotos; Culminância em forma de exposição (feira preta), com apresentação para a comunidade escolar; Avaliação formativa, considerando a participação e o engajamento dos estudantes em todo o processo.
Os estudantes demonstraram compreensão crescente sobre a participação de povos africanos e afrodiaspóricos na construção da ciência e da tecnologia. Ao longo das discussões, os alunos passaram a questionar a ideia de que a ciência teve origem exclusiva na Grécia Antiga. Muitos verbalizaram surpresa ao descobrirem inventores negros responsáveis por objetos presentes em seu cotidiano, relacionando-os à narrativa de apagamento histórico apresentada. Estudantes negros, especialmente, mostraram-se motivados e orgulhosos ao reconhecerem figuras históricas negras como protagonistas do desenvolvimento humano. Observou-se aumento da participação desses alunos em debates e atividades práticas. Ao estudar e reproduzir as invenções, os alunos exercitaram observação, experimentação, levantamento de hipóteses e explicação de processos. A culminância contou com participação expressiva das famílias, que elogiaram a abordagem inovadora e a importância da temática.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
PINHEIRO, Bárbara Carine Soares. História Preta das Coisas: 50 invenções científico-tecnológicas de pessoas negras. São Paulo: LF Editorial, 2021.