Boas PráticasMARCO AURELIO DA CONCEICAO CORREA
Pedagogo, escritor, cineasta e pesquisador. Professor da rede municipal do Rio de Janeiro, doutorando em educação (UERJ) e pósgraduado em ensino de história da África (CP2). Organiza o CineMGH, projeto que realiza exibições, formações e eventos nas comunidades do complexo de Manguinhos.
Publicou livros em diferentes nos gêneros teoria, conto, poesia, romance e infantil. Seu último livro é o infantil “Menino Zózimo vai ao cinema”. Realizou com as crianças-crias de Manguinhos curtas-metragens que circulam em festivais por todo o Brasil. Seu documentário “Ser cria” foi selecionado para o 18º Encontro de cinema negro Zózimo Bulbul.
CARGO/FUNÇÃO DO AUTOR:PEF - Anos iniciais
Meninos negros na ponta do lápis é um estudo realizado com uma turma de terceiro ano do ensino fundamental na Escola Municipal Professora Maria de Cerqueira e Silva na qual sou professor. A escola fica situada na comunidade do Mandela uma das favelas pertencentes ao Complexo de Manguinhos, zona norte do Rio de Janeiro. Manguinhos é um território conflagrado e um dos bairros da cidade que mais sofre com a desigualdade social. As operações policiais e a presença de atores do narcotráfico armados são uma realidade cotidiana.
Tendo a indisciplina como uma constante na turma, sobretudo vindo dos meninos, em que sua maioria são negros, decidi investigar a turma porque esses meninos agem tão diferente das meninas na escola. Contei as crianças que iriamos desenvolver uma pesquisa sobre os meninos negros e perguntei se todos estavam dispostos a participar. Todas crianças toparam. Em seguida passei um documento de autorização onde as famílias concordaram com a participação das crianças nesse processo.
Para entender que literaturas protagonizadas por meninos negros, e de autoria de homens negros, foi feita uma pesquisa em bases de dados digitais, como também bibliotecas pessoais e escolares para selecionar livros para suscitar o debate com as crianças. Dentre os selecionados, os principais livros debatidos foram: Menino Zózimo vai ao cinema (2025; autoria: Marco Aurélio Correa); O garoto da camisa vermelha (2019; autoria: Otávio Júnior); Por onde anda meu pai? (2025; autoria: Yago Eloy) e Pequeno príncipe preto para pequenos (2021; autoria: Rodrigo França). Uso algumas reflexões das rodas de conversa dos livros: Mandela (2022; autoria: Editora Mostarda); Xavier (2017; autoria: Carlos Carvalho) e Depois do ovo, a guerra (2014; autoria: Ana Carvalho).
As contações de história foram feitas de maneiras descontraídas, mas em alguns momentos algumas perguntas provocadoras aparecerão para suscitar uma roda de conversa entre as crianças da turma.
As respostas dos meninos negros tiveramuma ênfase para análise desse trabalho, mas todas crianças serão ouvidas. Com consenso das crianças as rodas serão gravadas e transcritas para compor a parte teórica, narrativa e literária desse trabalho.
Desenhos também foram partes importantes para o mergulho nos livros trabalhados. Alguns registros foram direcionados após as rodas, como também registros cotidianos livres das crianças me permitiram compreender melhor suas impressões sobre as masculinidades negras.
Depois das rodas de conversa senti ainda uma necessidade maior de me aprofundar nas perspectivas das crianças, principalmente os meninos negros. Então realizei uma consulta individual com cada criança que me deu suas definições de oito palavras diferentes: autor, favela, gênero, infância, masculinidade menino e negra. As definições de cada criança podem ser acessadas em uma tabela , e com uma proposta mais literária criamos um livro de aforisma intitulado Meninos negros na ponta do lápis .
Ficou evidente que a atividade não teria como desmontar questões tão estruturantes de nossas relações de gênero. Contudo, levar essa discussão para a sala foi importante para que os meninos entendessem que o ser masculino também é uma forma entender o mundo. A criação de aforismas para o mural foi bem importante pois nos permitiu ver a produção de conhecimentos das crianças a partir desse tópico. É visível na multiplicidade de interpretação de palavras como: autor, favela, gênero, infância, literatura, masculinidade, menino, e negra, como as crianças tem visões potentes.
Apesar de algum desinteresse e resistência à proposta apresentada. Não podemos esquecer que era um homem negro e adulto e ainda professor os indagando. Os meninos romperam muitos dos estereótipos que os limitam à ideia de indolentes ou indisciplinados. As impressões das crianças me fizeram perceber que os meninos negros de hoje contribuem para uma nova concepção de masculinidade, em sintonia com as novas exigências.
DEBUS, Eliane. Meninos e meninas negras na literatura infantil brasileira: (des)velando preconceitos. PERSPECTIVA, Florianópolis, v. 28, n. 1, 191-210, jan./jun. 2010.
PINHO, Osmundo. Qual é a identidade do homem negro? Revista Democracia Viva n. 22, p. 64-69, jun /jul 2004.
ROSA, Waldemir. Observando uma masculinidade subalterna: homens negros em uma democracia racial. In: Seminário Internacional Fazendo Gênero VII – Gênero e Preconceitos, 2006, Florianópolis. Anais Fazendo Gênero VII. Florianópolis: Editora Mulheres, v. 1. p. 1-7, 2006.
RESTIER, Henrique. Como é ser um homem negro no Brasil? Justificando. 03 Jul 2017.
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