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Cartografando territórios imaginados

Cartografando territórios imaginados

Publicado em 28/08/2026

O projeto hector – hub de educação, cultura, tecnologia e outras realidades – é uma iniciativa da MultiRio em parceria com a Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (FE/UFRJ) que agrega pesquisadores e pesquisadoras que buscam transitar em espaços desconhecidos (territórios do Estado do Rio de Janeiro) por meio das narrativas de seus participantes, para investigar os desafios enfrentados pelos gestores na perspectiva de construir, juntos, futuros possíveis.

A parceria de viagem começa com o Conecta Pessoas, um encontro presencial que prevê a aproximação dos/as participantes a partir de etapas cuja experimentação do corpo, do espaço colaborativo e das memórias individuais e coletivas tem papel fundamental para a criação de um ambiente seguro e criativo. Por meio da cartografia, colhemos narrativas e vivências dos sujeitos envolvidos no encontro.

Os territórios investigados a princípio são desconhecidos [1]e justamente por isso o espaço vira uma questão, deixa de ser evidência, deixa de ser incorporado com facilidade, deixa de ser apropriado e passa a ser uma incerteza: é preciso de tempo e escuta para apontá-lo, para nomeá-lo.

A cartografia que se busca investir diz respeito não somente a um mapeamento físico que requer o uso da descrição de espaços ou a quantificação populacional de determinados territórios, mas o olhar interessado buscando desenhar (mapear) paisagens e fluxos psicossociais descritos pelos processos de produção de subjetividades dos agentes envolvidos.

Para tornar possível o desenho de tais paisagens, cujas linhas não podem e não devem ser predefinidas, é importante um roteiro de trocas permanentes, pois se trata de uma ação em movimento.

Esse trajeto cartográfico passeia pelas linhas, curvas e formas que compõem as narrativas de existência de um território, mostrando que o espaço nomeado, narrado ou até ficcionado é descontínuo, heterogêneo e pode ser composto por vários e outros pequenos espaços, que poderiam ser pensados como:

“espaço inventário, espaço inventado: o espaço começa com esse mapa-modelo [...] sequer é necessário fechar os olhos para que esse espaço suscitado pelas palavras, esse simples espaço de dicionário, esse simples espaço de papel, seja animado, povoado, preenchido” nos diria PEREC (2025, p. 25-26) em seu livro Espécies de espaços.

Assim, muito mais que um território imaginado, ou dado a se conhecer com as narrativas fabuladas por cada integrante, surgem histórias tal qual um relato de viagem, onde não há preocupação com a pura veracidade, mas o interesse pela subjetividade inerente a este plano comum de vivência. Com caráter figurativo ou ficcional, os mapas construídos em comum podem borrar as fronteiras da realidade na medida em que acessam um horizonte imaginado.

Cartografar um espaço seria apostar nesse plano do desconhecido, pois podemos imaginar, sem dificuldade, uma cidade da qual conhecemos a disposição das ruas não pelo mapa em si, mas por suas funções relacionais: aquela rua onde compro pão diariamente, ou aquela que abriga o ponto do ônibus que me leva para casa ou, ainda, aquela pequena rua onde fica minha livraria preferida.

Decifrar uma cidade requer proximidade, encontrar exemplos, observar exceções, tentar classificar lugares e pessoas; notar se existem muitas ou poucas árvores; descobrir escolas, museus, cinemas ou a ausência deles; mas o exercício, aqui, seria não tentar encontrar depressa demais uma definição para a cidade em questão, nem estabelecer distinções ou incorporá-las como certezas.

Nesse investimento de aproximação, junto ao mapa, escutamos a narrativa da pessoa que morava em um dos territórios cartografados – a operação de memória foi acionada ao lembrá-la do aroma das damas-da-noite em um passeio noturno por vielas hoje intransponíveis devido ao território conflagrado pela violência. Naquele instante-momento, o tempo se reconfigurou em espiral e as experiências cumulativas que habitam o passado e o futuro (re)construíram o acontecimento presentificado, (pre)figurando o devir. O cheiro das flores imaginadas acionou o contexto de produção da memória em acontecimento inseparável, tornando a sensação presente.

Descobrimos que investir no acionamento desses dispositivos de produção de subjetividade enriquecem o fazer cartográfico, de vez que cartografar territórios tem sido esse convite construído em conjunto, na possibilidade de acessar o tempo de outra maneira – não como uma linha reta que vai do passado ao futuro, mas como algo vivo, atravessado de memórias e, principalmente, repleto de infinitas possibilidades.

No hector, a partir do Conecta Pessoas, iniciamos um processo de investigação do território que compreende a realidade como algo em permanente construção. Mais do que levantar informações ou produzir diagnósticos, buscamos criar espaços de encontro, escuta e experimentação capazes de revelar múltiplas narrativas, relações e potências presentes em cada contexto. Partimos do entendimento de que investigar um território não significa apenas observá-lo, mas acompanhá-lo em seus movimentos, reconhecendo que cada encontro produz novos conhecimentos, fortalece vínculos e amplia as possibilidades de ação coletiva. Assim, a investigação deixa de ser uma etapa anterior ao projeto para tornar-se parte do próprio processo de transformação.

O encontro entre diferentes perspectivas faz emergir novas conexões, produz outras formas de compreender o território e cria condições para que iniciativas colaborativas possam surgir e se desenvolver. Essa abordagem compreende o território como uma rede ativa de relações, à qual pessoas, instituições, saberes e experiências se conectam de maneira dinâmica. Em vez de buscar respostas únicas ou percursos previamente definidos, o processo valoriza o que emerge dos encontros, das conversas e das experiências compartilhadas, permitindo que cada realidade revele os próprios caminhos de desenvolvimento.

Por isso, o conhecer e o intervir acontecem simultaneamente. Cada oficina, visita, reunião, caminhada, roda de conversa ou atividade coletiva produz novos elementos para compreender o território e, ao mesmo tempo, fortalece redes de colaboração, estimula o protagonismo local e inaugura novas possibilidades de atuação.

Mais que construir um retrato da realidade, o hector acompanha processos, evidencia as forças que atravessam o território e contribui para que novos projetos, parcerias e formas de participação sejam produzidos coletivamente. A cartografia, nesse contexto, deixa de ser um instrumento de representação e passa a ser uma prática de construção compartilhada de outras realidades.

[1] Entendemos por “territórios desconhecidos”, as cidades do Rio de Janeiro, participantes do edital proposto pelo projeto hector, com suas peculiaridades e espaços singulares, bem como com saberes e fazeres cotidianos e micropolíticos ainda a serem observados pelos pesquisadores durante o fluxo do processo cartográfico iniciado no primeiro encontro do projeto.

Referência bibliográfica

PEREC, Georges. Espécies de espaços. Tradução de Daniel Lühmann. São Paulo: Editora 34, 2025. 216 p.

Foto do autor

Andréa Costa da Silva - Universidade Federal do Rio de Janeiro

Biografia: Foi professora dos anos iniciais do ensino fundamental por 25 anos. No espaço da Universidade, após o Doutorado e o Mestrado em Educação em Ciências e Saúde (NUTES / UFRJ), atuou como Editora Assistente de um periódico científico e atualmente, participa como professora colaboradora no Programa de Pós - Graduação em Educação em Ciências e Saúde (NUTES / UFRJ) onde orienta pesquisas e estudos em nível de mestrado e doutorado.