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Pensando a Educação
A “revolta das crianças” no Roblox não é só meme: é um alerta sobre conversa, cuidado e cidadania digital
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Publicado por Natália Xavier em 23/01/2026

Teve protesto no Roblox: cartazes, aglomeração de avatares, frases engraçadas e muita gente chamando tudo isso de “revolta das crianças”. A internet amou, claro! Mas, por trás do meme, resta uma pergunta séria e bem atual: O que acontece quando um espaço digital, que virou ponto de encontro, muda as regras da conversa?

O Roblox passou a restringir o uso do chat por texto e voz, de acordo com a faixa etária, e a exigir verificação facial para comprovar a idade. Em algumas situações, crianças menores, por padrão, ficam com o chat desligado, a não ser com autorização do responsável. A promessa é aumentar a segurança e reduzir riscos como assédio, aliciamento e exposição a conteúdos inadequados – problemas que não são novidade em ambientes online frequentados por crianças.

Só que, em contrapartida, há um sentimento real: para muita gente, principalmente crianças, ficar sem chat é o mesmo que perder a parte mais importante do jogo. Porque o Roblox não é só um jogo. É também relacionamento, brincadeira coletiva, risada, “Vem pra cá!”, “Me ajuda aqui!”, “Olha só isso:”. É social.

Nas placas que viralizaram durante as “manifestações”, muitas crianças preferiram procurar um culpado e o nome do influenciador Felca entrou nessa narrativa. Isso mostra como a informação se espalha quando falta contexto: um assunto complexo vira uma explicação rápida e o debate perde profundidade.

A internet tenta simplificar com um rosto, um atalho. O problema é que isso alimenta ataques, distorce o debate e faz a gente perder a essência da discussão: entender o que mudou, por que mudou e como devemos agir com mais segurança e responsabilidade.

A “revolta” deixa de ser apenas uma cena engraçada e vira um espelho do nosso tempo: Como proteger sem silenciar? Como cuidar sem cortar vínculos? Como educar para o digital e não apenas controlar o digital?

Quando a conversa vira campo de batalha

A primeira reação adulta, às vezes, é rápida e prática: “Se está dando problema, corta!”. Só que a vida digital não funciona bem no modo liga/desliga. Para as crianças, conversa é também aprendizado. É nas conversas que surgem as perguntas, os conflitos, as combinações, as frustrações e as escolhas: “Isso é verdade?”; “Por que estão me zoando?”; “Por que essa pessoa quer meu WhatsApp?”; “Posso confiar?”; “Como é que eu digo não?”.

Se a gente só desligar o chat, a criança pode até ficar mais protegida naquele espaço, mas não fica necessariamente mais preparada para o próximo. E tenham certeza: o próximo aplicativo, jogo ou rede social sempre chega! É por isso que a discussão sobre Roblox é um prato cheio para a Educação Midiática: ela não trata apenas de tecnologia, mas de relacionamentos, direitos, riscos e autonomia.

Segurança é essencial. Mas não dá para terceirizar tudo para a plataforma. Sim: plataformas têm responsabilidade. E sim: medidas de segurança fazem sentido. Verificação de idade e limites de chat podem reduzir riscos, principalmente para crianças pequenas. Mas vale lembrar um fato importante: nenhuma ferramenta substitui presença adulta e educação.

O ambiente digital muda rápido. E crianças aprendem a contornar sistemas tão rapidamente quanto aprendem a dançar para participar de uma trend. A pergunta prática não é se o Roblox está certo ou errado. Precisamos refletir sobre como a gente transforma esse assunto em aprendizado dentro de casa e na escola.

Pais e responsáveis: em vez de briga, três conversas que funcionam

Se esse tema estourou aí na sua casa, experimente trocar a bronca por curiosidade. Três perguntas simples abrem portas:

  1. O que você sente que perdeu sem o chat? | Às vezes é menos “dependência” e mais “medo de ficar de fora”.
  2. Com quem você conversava? Amigos da escola? Pessoas desconhecidas? | Isso muda tudo.
  3. Que tipo de conversa te deixa desconfortável? | É aqui que a criança começa a identificar risco, e não só a obedecer regra.

A partir desse diálogo, é possível combinar caminhos mais seguros como priorizar jogos com amigos conhecidos, utilizar chamadas em grupos familiares, estabelecer limites de horário e acompanhar mais de perto as interações. Mais do que isso, é fundamental combinar as seguintes regras: qualquer pedido de segredo, solicitação de dados pessoais ou convite para conversar fora do jogo deve ser imediatamente compartilhado com um adulto de confiança.

O recado central não precisa ser “Não pode!”, mas sim “Vamos aprender a jogar com segurança”. Orientar sobre a importância de não compartilhar informações pessoais, não aceitar interações externas com desconhecidos e buscar ajuda sempre que algo gerar medo, confusão ou desconforto é uma forma de cuidado, não de vigilância excessiva.

Professores: Roblox virou tema de aula, mesmo sem estar no currículo!

A “revolta” é um gancho perfeito para trabalhar: desinformação (O que é fato, o que é boato, o que foi exagerado?); linguagem e intenção (Meme informa ou confunde?); convivência e ética (O que é assédio? O que é respeito?); direitos e privacidade (O que significa provar idade? Que dados estão em jogo?) e cidadania digital (Como agir em comunidade online?)

E não é para “dar aula de Roblox”. Basta usar o episódio como exemplo de leitura crítica: Como uma decisão de plataforma vira debate social e como nós reagimos a isso.

O que essa história ensina a todo mundo?

A “revolta das crianças no Roblox” engajou porque é visual, inesperada e tem a cara da internet. Mas ela revela algo importante. A vida digital está virando cada vez mais atividade regulada, mediada e monitorada e a gente precisa aprender a viver nesse cenário.

O caminho mais inteligente não é só restringir, nem só liberar. Educar para o digital dá trabalho, mas garante um futuro seguro. Aprender a ler, entender, criar e conviver nas redes com mais consciência é a essência da Educação Midiática. Quando a conversa fica difícil, como ficou no Roblox, é justamente aí que ela se torna mais necessária.

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Natália Xavier é doutoranda em Humanidades, Culturas e Artes, mestre em Ensino de Ciências, especialista em Psicopedagogia, Gestão Escolar, Designer Instrucional, Planejamento, Implementação e Gestão em EaD e LIBRAS. Com mais de 15 anos de experiência em Educação e Gestão Pública, atuou como diretora da Escola da Cultura na Secretaria de Estado e Cultura Criativa do Governo do Estado do Rio de Janeiro e diretora do Departamento do Sistema de Gestão Educacional na Secretaria Municipal de Educação de Duque de Caxias. É professora da Rede Municipal de Ensino de Duque de Caxias e coordenadora do Curso de Graduação de Pedagogia na Afya Unigranrio. Atualmente é diretora de Mídia e Educação da MultiRio.

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