Calma, com a fala mansa e o sorriso aberto, Nelza Souza de Farias, professora de Sala de Leitura na E.M. Abeilard Feijó, em Cocotá, na Ilha do Governador, pode parecer tímida em um primeiro momento. “Fico um pouco travada para falar com adultos, mas com as crianças... Gosto muito de conversar e de ouvi-los”, confessa. E é ao falar da relação com os alunos que a professora vai se soltando, e a timidez dá lugar a um entusiasmo espontâneo, de quem parece se renovar a cada dia pela troca com as crianças.
Aos 69 anos, perto de se aposentar, ela se emociona ao falar do trabalho e da saudade que sentirá da rotina na escola. “É meu último ano na escola e me despedir vai ser muito triste. Construí uma vida aqui. Sentirei falta, principalmente, das crianças. Saio de casa com meus problemas, mas o abraço e a alegria delas me renovam. Os mais novos, então, de 4 anos, tão pequenos, tão inocentes... É um carinho muito sincero!”
Em busca do sonho
Nascida em Ilhéus, na Bahia, Nelza veio para o Rio aos 10 anos de idade, acompanhada da avó e da mãe, em busca de uma vida melhor na Cidade Maravilhosa. Sua mãe trabalhava como costureira, e Nelza alimentava, desde pequena, o sonho de ser professora. “Eu tinha dois desejos: dar aula e casar com um militar. Meus alunos riem quando conto isso. A primeira parte deu certo, mas a segunda foi deixada de lado mesmo”, brinca.
Com muito esforço, a baiana concluiu a Escola Normal e o Magistério. Em 1973, começou a trabalhar na Rede Municipal de Ensino, em escolas nos bairros de Santa Cruz e Realengo, onde morava. Depois, quando se mudou para a Ilha do Governador, pediu transferência. Trabalhou na E.M. Costa Rica, no Jardim Guanabara, e na E.M. Abeilard Feijó, onde está há mais de 35 anos – 15 deles à frente da Sala de Leitura.
Despertando o prazer pela leitura
Atualmente, Nelza está substituindo uma professora no 5º ano, mas segue com as aulas na Sala de Leitura e também fazendo empréstimos de livros às turmas. “Meu trabalho é muito prazeroso, os alunos gostam de estar aqui. Desenvolvo neles o prazer pela leitura, conto histórias, exibo filmes e até ensaio peças de teatro, como, por exemplo, uma sobre a dengue”, conta, ressaltando que está sempre em busca de novas propostas para motivar e aumentar o interesse das crianças e dos jovens.
Em uma das atividades realizadas em sala, a partir da leitura de um livro, Nelza diz que questionou os alunos sobre o sonho de cada um. “Fiquei comovida com algumas respostas. Uma menina, por exemplo, disse que queria sair do morro, ser médica e dar uma vida melhor para a família dela. É inspirador!”
Segundo a professora, a maior parte dos alunos vive no Morro do Dendê, também em Cocotá, e passa por muitas situações difíceis na vida e no dia a dia da comunidade. “Aqui, na escola, quero que eles tirem esses problemas da cabeça. Quero minimizar qualquer sofrimento. Esse é também o meu papel.”
Planos para o futuro
Casada e com duas filhas – que estudaram, inclusive, na mesma escola onde leciona –, a professora aproveita o tempo em que não está trabalhando para cuidar da casa, dos dois cachorros, passear no shopping, ir ao cinema ou a São Pedro da Aldeia, onde tem uma casa. “Olhar para a Lagoa de Araruama traz uma paz e recarrega minhas energias.”
De olho na aposentadoria – ainda que contrariada –, Nelza também começa a planejar e imaginar o futuro. “Fico pensando no que fazer quando me aposentar. Quem sabe a contação de histórias em alguns hospitais, um tipo de trabalho voluntário? Quero ajudar o outro para ocupar bem o meu tempo.”