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Lindomar da Silva Araujo, professor de Artes
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Publicado por Fernanda Fernandes em 27/10/2016
Foto: Alberto Jacob Filho

Avesso ao comodismo e adepto de mudanças, Lindomar da Silva Araujo largou a dança e o universo da televisão – com que tanto sonhara quando criança – e foi para a área de Educação. Primeiro bailarino do sexo masculino formado em um curso superior de Dança na cidade do Rio de Janeiro, hoje é professor de Artes na E.M. Vicente Licinio Cardoso (1ª Coordenadoria Regional de Educação) e vê a mudança de carreira como uma grande virada em sua vida. “Sinto-me, finalmente, um protagonista.”

Criado no bairro de Realengo, Lindomar é o único homem entre seis irmãs – e também o mais novo. Desde criança, dançava e interpretava em apresentações da escola, e alimentava o sonho de ser artista. “A televisão era o encarte que eu tinha do mundo. Era por meio dela que eu tinha acesso à cultura naquela época, e era lá que eu queria estar!”, relembra.

Depois de estudar em algumas escolas municipais da região e até de outros bairros (pois queria “ir para longe de casa”), a dança lhe rendeu uma bolsa em uma escola particular, onde foi cursar o Ensino Médio. Lá, envolveu-se cada vez mais no mundo das artes, sendo sempre muito incentivado por seus professores.

Na mesma escola, quis fazer o curso Normal, mas, com medo de ser ridicularizado pelos colegas, acabou optando pelo curso de Contabilidade. “Não fiz o Normal devido ao preconceito que existia naquela época, apenas mulheres faziam aquele curso. Então, senti vergonha e acabei na Contabilidade. Eu era bom em Matemática, e trabalhar em um banco também era um sonho!”

Apesar disso, Lindomar participou constantemente das atividades do grupo de dança das meninas do curso Normal e chegou, inclusive, a ser convidado para tornar-se tutor das estudantes. Nessa época, dedicou-se a atividades e cursos voltados à expressão corporal, improvisação e jazz, até ser chamado para servir ao Exército. “No começo, não queria ir. Mas, depois, passei a gostar da rotina, acampamentos e, claro, dos amigos que fiz.”

Quando saiu, trabalhou em uma loja de confecção de roupas, até decidir estudar dança em um centro especializado. Em seguida, foi aprovado em uma avaliação que o habilitou, naquela época, a dar aulas profissionais de dança.

Dos estúdios para a sala de aula

Lindomar em dia de apresentação de dança, na década de 1980 (Foto: Arquivo pessoal do professor)

Muito estudioso, Lindomar matriculou-se em uma faculdade de História, com a ideia de estudar a História da Dança. Mas uma descoberta fez seus planos mudarem. “Sempre corri muito atrás de cursos na área artística. Até que descobri que havia sido aberta uma faculdade de Dança no Rio de Janeiro. Fiz a prova, passei e entrei na segunda turma daquele curso. Fui o primeiro bailarino a se formar em Dança na cidade do Rio, já que na primeira turma não havia homens”, conta, orgulhoso.A partir daí, surgiram inúmeras oportunidades e trabalhos em aberturas de novela e programas de auditório de emissoras como a Rede Globo e a Manchete. “Foram anos muito intensos de trabalho. Atuei por cerca de 15 anos ao lado da Angélica, morei em Miami, até que fui cansando daquela rotina, de não ter a minha carreira própria como bailarino.”

Então, ele foi deixando a televisão de lado e voltou a dar aulas de dança, jazz e balé. Fez uma pós-graduação em Psicomotricidade e, ali, descobriu a Educação. “Durante esse curso, eu percebi que eu podia dar aulas, ser professor, e não apenas de dança. E vi que nisso eu teria a minha autonomia, a minha carreira. Foi uma grande virada na minha vida!”

Buscando estabilidade, prestou concursos e trabalhou como professor de Artes nas cidades de Angra dos Reis e Belford Roxo, até chegar à Rede Pública Municipal do Rio de Janeiro. “Me senti muito à vontade em sala de aula. Foi fácil e muito bom!”

A partir daí, Lindomar começou uma “imersão na Educação”. “Fiz cursos de formação e estudos em Arte-Educação. Não queria mais aquela rotina de gravações; estava em outro momento, encontrei outras possibilidades.”

Passou pelas escolas municipais Rosaria Trotta, da 9ª CRE; Portugal e Tia Ciata, da 1ª CRE; Orsina da Fonseca, Epitácio Pessoa e André Urani, da 2ª CRE, entre outras.

Por três vezes, venceu o Prêmio Anísio Teixeira de monografias feitas por professores da Rede Municipal, em 2008, 2015 e neste ano, na extinta categoria Tecnologia em Educação, hoje chamada Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs). “Estou sempre atento a concursos desse tipo e incentivo meus colegas a se inscreverem em todos também!”

O professor ao lado das alunas Ana Luiza Fernandes, Mariane Aguiar e Stephany Raíssa, da turma 1801 (Foto: Alberto Jacob Filho)

Hoje, Lindomar trabalha na E.M. Vicente Licinio Cardoso, na Saúde. Lá, deu aulas de Protagonismo Juvenil, leciona Projeto de Vida e é também professor de Arte e Mídias. Com os alunos, trabalha a linguagem audiovisual, sobretudo fotografia e curtas. “Falamos, por exemplo, sobre o enquadramento da câmera, mas não para que eles tenham um olhar técnico, e sim crítico. Para que entendam os efeitos e o porquê de cada escolha feita.”

Temas do cotidiano e de interesse dos alunos estão sempre em pauta. “Costumo pedir que eles sugiram temas que estão presentes na vida deles. Fizemos, por exemplo, um trabalho sobre as transformações na região do Porto, área em que a escola está localizada. O curta que produzimos foi exibido no Museu de Arte do Rio (MAR) e os alunos até participaram de uma mesa de debates.”

Sensível e muito positivo, Lindomar valoriza a afetividade em sua relação com os estudantes. “Não existe construção de conhecimento sem afeto. Vejo todos os alunos da mesma forma, como iguais, mas cada um em sua diferença. Alguns entram no 7º ano bastante tímidos, quietos. Outros, sem limites. Mas em um ano já é possível observar a transformação encantadora pela qual eles passam, sobretudo por meio da Arte. Fazer parte dessa transformação é o que me alimenta. Eu via a Educação como doação, mas, na verdade, é uma construção – e construímos juntos.”

 

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